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Antonio Cruz/ABr

De 'muita convergência' a um 'deserto de ideias', as idas e vindas de Maia sobre Bolsonaro

Por Hyury Potter e Luiza Bodenmüller

25 de março de 2019, 18h15


Desde as eleições de 2018, a relação entre o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o presidente Jair Bolsonaro passou por altos e baixos. Maia, que afirmou ter votado em Bolsonaro no pleito de outubro, se transformou em crítico contumaz da forma de governar do novo mandatário do Palácio do Planalto. Entre palavras de apoios e farpas, selecionamos algumas falas de Maia que dão a medida da relação entre dois dos principais responsáveis pela articulação política brasileira.

Votei no Bolsonaro pela agenda econômica dele. Tenho muita convergência com os caminhos que estão sendo propostos pelo Paulo Guedes. Se essa for a agenda do governo no Parlamento, terá sempre o meu apoio. — Rodrigo Maia, em entrevista ao jornal O Globo

Em 2018, num intervalo de pouco mais de seis meses, Rodrigo Maia (DEM-SP) mudou de opinião ao menos duas vezes em relação ao seu apoio a Jair Bolsonaro (PSL). Em março, Maia havia dito em entrevista ao Correio Braziliense que a candidatura de Bolsonaro não teria força para chegar ao segundo turno. Em junho, ele declarou que em um eventual segundo turno entre Jair Bolsonaro e Ciro Gomes, seu voto seria de Ciro. Em outubro, durante coletiva após a votação no segundo turno, Maia declarou voto em Bolsonaro e disse acreditar que a diferença entre os candidatos seria maior do que as pesquisas apontavam. O deputado defendeu a escolha, justificando que a pauta econômica apresentada pelo então candidato do PSL apresenta mais convergências com a pauta do DEM do que as propostas petistas.


Não há nenhuma indicação do DEM. O DEM não faz parte do governo. — em evento da Abrig (Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais)

Em novembro de 2018, quando Bolsonaro começou a formar sua equipe de governo, Maia fez questão de desvincular a participação do DEM na escolha dos quadros. Naquele momento, três nomes ligados ao DEM eram cogitados como ministros e, de fato, foram escolhidos por Bolsonaro: Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e Tereza Cristina (Agricultura). “As indicações são de exclusiva responsabilidade do presidente da República. O DEM não participou de nenhuma delas. Uma foi pessoal [Lorenzoni], outra foi [indicação da bancada ruralista. Aliás, foi o Alceu Moreira [deputado federal (MDB-RS)], que é meu possível adversário para eleição para presidente da Câmara, que levou a Tereza Cristina ao presidente para a sua indicação. O outro foi a bancada da saúde [Mandetta]", disse Maia.


As reformas importantes mais polêmicas sempre precisam da liderança do governo alinhada ao Parlamento. — em coletiva de imprensa

Ainda no rescaldo pós-eleitoral, Maia ensaiou medir forças com a equipe de Bolsonaro. Em entrevista na Câmara, Maia desconversou sobre a urgência em pautar a reforma da Previdência e que estabelecer um prazo naquele momento seria precipitado. O presidente da Câmara também aproveitou a oportunidade para deixar um recado claro ao governo recém-eleito, dizendo que a aliança entre a equipe do Planalto e o parlamento é essencial para as reformas "importantes mais polêmicas". Em comentários publicados pela Folha de S.Paulo, os líderes de partido concordaram com Maia naquele momento, argumentando que o melhor caminho era aguardar a posse da nova legislatura para encaminhar as articulações sobre a reforma.

A nova legislatura começou com Rodrigo Maia próximo de Bolsonaro e do PSL, partido que o apoiou à reeleição para Presidência da Câmara em fevereiro. No dia 11 de janeiro, Maia e Bolsonaro chegaram a trocar bilhetes e conversas ao pé do ouvido em uma solenidade de formatura de procuradores da República, em Brasília.


A impressão que dá é que o presidente está usando o filho para pedir para o Bebianno sair. E ele é presidente da República, não é? Não é mais um deputado, ele não é presidente da associação dos militares. — em entrevista ao G1

Reeleito em 1 de fevereiro para presidir a Câmara até 2021, poucos dias depois Maia fez a primeira crítica aberta à forma como Bolsonaro estava lidando com a crise das candidaturas laranjas do PSL, que terminou com a demissão do então ministro da Secretaria Geral, Gustavo Bebianno. Em 14 de fevereiro, o parlamentar criticou a interferência dos filhos de Bolsonaro. Na época, o vereador carioca Carlos Bolsonaro chegou a dizer que Bebianno tinha mentido sobre ter conversado com Bolsonaro durante a crise, quando o presidente ainda estava hospitalizado em São Paulo após a cirurgia da retirada da bolsa de colostomia. No entanto, áudios de WhatsApp divulgados pela imprensa confirmaram que houve contato entre Bebianno e Bolsonaro.


Você pode pesquisar os meus tuítes, os do presidente e do entorno do presidente, para você ver quem está sendo agredido nas redes sociais. — em coletiva após almoço com governador João Doria (PSDB) em SP.

Os atritos de Maia com a cúpula do governo cresceram em março, principalmente por causa do andamento dos dois principais projetos do governo: a reforma da Previdência e o projeto Anticrime do Ministério da Justiça. No últimos dias as diferenças se tornaram em um bate-boca público entre os presidente do Legislativo e do Executivo. Maia reclamou dos ataques que sofre nas redes sociais de pessoas próximas de Bolsonaro: "Não uso redes sociais para agredir ninguém", disse em coletiva de imprensa.


Eu não preciso almoçar, não preciso do café e não preciso voltar a namorar. Eu preciso que o presidente assuma de forma definitiva o seu papel institucional. — em entrevista ao Jornal Nacional

Em resposta às críticas de Maia, Bolsonaro ironizou a situação e disse que o demista estava se comportando como “uma namorada que quer ir embora”. Maia retrucou com nova crítica à atuação do presidente: “eu preciso que o presidente assuma de forma definitiva o seu papel institucional, que é liderar a votação da reforma da Previdência, chamar partido por partido que quer aprovar a Previdência e mostrar os motivos dessa necessidade”, disse em entrevista ao Jornal Nacional na sexta-feira (22).


O governo é um deserto de ideias. — em entrevista ao Estado de S. Paulo

Além de criticar a articulação política do Planalto, Maia também teceu críticas no fim da semana passada sobre o projeto do governo de Bolsonaro. “Criticaram tanto o Bolsa Família e não propuseram nada até agora no lugar. Criticaram tanto a evasão escolar de jovens e agora a gente não sabe o que o governo pensa para os jovens e para as crianças de zero a três anos”, disse em entrevista publicada no sábado (23).


Vou continuar dentro do processo, na Câmara dos Deputados, dialogando com deputado e ajudando. Mas eu não tenho responsabilidade e nem o governo pode me delegar a responsabilidade de construir uma base para o governo. — em coletiva de imprensa

No sábado, Maia disse a jornalistas que o atrito com o Planalto era “página virada”. O presidente da Câmara, no entanto, criticou a maneira como Bolsonaro atua na articulação e ainda cutucou o presidente sobre a “nova política”, uma das bandeiras do PSL na eleição passada. “Quer dizer, transfere para o presidente da Câmara e para o presidente do Senado uma responsabilidade que é dele e fica transferindo e criticando: 'Ah, a velha política está me pressionando, estão me pressionando'. Então ele precisa assumir essa articulação, porque ele precisa dizer o que é a nova política", disse a jornalistas no último sábado (23).

A falta de articulação no Congresso e os ataques nas redes sociais são alguns pontos levantados por Maia para o início da briga declarada, mas analistas indicam outro motivo para o estopim da crise. De acordo com o colunista do jornal O Estado de S. Paulo, José Nêumanne Pinto, a prisão de Moreira Franco (MDB-RJ), ex-ministro de Temer e ex-governador do Rio, em 21 de março pela operação Lava Jato, acusado de ter participado junto com Michel Temer, preso no mesmo dia, de um esquema de propina em projeto para a usina nuclear de Angra 3. Maia é casado com uma enteada de Moreira Franco. O político foi solto nesta segunda-feira junto com Temer e os outros investigados.