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Crivella exalta mais emprego e menos crime no Rio, mas dados mostram outro cenário

Por Luiz Fernando Menezes e Tai Nalon

15 de setembro de 2017, 08h30


O festival de música Rock in Rio começa nesta sexta-feira (15) e ocupará, pela primeira vez, o Parque Olímpico da capital fluminense. Ao lado do idealizador do evento, Roberto Medina, o prefeito Marcelo Crivella exaltou na última terça-feira (12) um otimismo inexistente na cidade em relação à criminalidade e ao desemprego.

"O Roberto Medina disse sobre esse sentimento que precisa estar na alma do povo carioca. E, infelizmente, nós somos desalentados todos os dias com um noticiário que não é o retrato exato da nossa cidade. E mais: nós estamos melhorando. A criminalidade está baixando, o emprego está voltando. Os investimentos em saúde e educação estão sendo maiores do que no ano passado", disse Crivella.

Por meio da plataforma #vamosaosfatos, de interação com o leitor, Mateus Garcia, do Rio de Janeiro, pediu que Aos Fatos checasse a fala do prefeito. Veja abaixo o resultado ponto a ponto.


IMPRECISO

A criminalidade está baixando.

Se ao falar de criminalidade o prefeito carioca está se referindo ao número de ocorrências criminosas em geral, há de fato queda nos registros oficiais na comparação com os sete primeiros meses de cada ano desde 2012. De acordo com o Instituto de Segurança Pública, foram 204 mil ocorrências na capital em 2012, 214 mil em 2013, 235 mil em 2014, 222 mil em 2015, 224 mil em 2016 e, em 2017, foram 212 mil — uma queda de 5% em relação ao ano anterior. No entanto, ainda é cedo para apontar uma tendência significativa, uma vez que entre 2015 e 2016 houve aumento no número de ocorrências.

Porém, em relação ao número de letalidades violentas — ou seja, mortes decorrentes de homicídio doloso, latrocínio, lesões corporais e homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial —, o cenário é outro: o número aumentou muito desde 2016. Enquanto nos sete primeiros meses de 2015 foram 949 mortes violentas, o ano de 2016 teve 1.064 e o de 2017 teve 1.252 —um aumento de quase 15%.

Não é possível afirmar também que há tendência de queda no quadro geral anual. Entre 2015 e 2016, o Instituto de Segurança Pública registrou um aumento considerável no número de ocorrências: de 376 mil, foi para 389 mil. Isso se repete nas letalidades violentas: em 2015, houve 1.562 casos; em 2016, o número foi para 1.909 registros.


FALSO

O emprego está voltando.

De acordo com a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) publicada em agosto deste ano, o desemprego na capital fluminense só vem aumentando desde o terceiro trimestre de 2015, quando a taxa de desocupados pulou de 4,2% para 5,1%. Hoje, é estimado que 13% da população em idade de trabalhar no município do Rio esteja desempregada.

Além disso, de acordo com dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho, na cidade do Rio de Janeiro, em 2017, foram criados 306 mil postos de trabalho até junho mas, ao mesmo tempo, foram demitidas 349 mil pessoas, deixando um saldo negativo de 42 mil vagas.

Porém, em junho do ano passado, a situação não era tão diferente: até aquele mês, 387 mil vagas tinham sido criadas, 442 mil pessoas foram demitidas e o saldo era de 55 mil vagas negativas.

Ao compararmos o saldo dos dois anos, há, sim, uma diminuição do saldo negativo. Mas isso não muda o fato de que ainda falta emprego para a população carioca. Sem contar também que, no primeiro semestre de 2016, foram criados mais postos de trabalho do que no mesmo período em 2017. O que diminuiu o saldo foi o número menor de demissões.


FALSO

Os investimentos em saúde e educação estão sendo maiores do que no ano passado.

Os dados orçamentários da cidade podem causar fácil confusão: os gastos com educação cresceram 1,6% nos oito primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período do ano passado, mas a alta fica abaixo da inflação oficial para o período. Além disso, a dotação orçamentária para a área neste ano é menor do que a de 2016.

Já a previsão orçamentária da saúde para 2017 é 7,5% maior que a previsão de 2016, sendo esse o único dado que objetivamente vai ao encontro com o que Crivella disse. O problema é que os recursos para a área gastos nos primeiros oito meses do ano diminuíram 13,7% em relação ao mesmo período do ano passado. Ou seja: circunstancialmente, a afirmação do prefeito não corresponde com os dados disponíveis.

De acordo com dados do Portal da Transparência do Rio de Janeiro, a Secretaria Municipal de Educação tinha como orçamento inicial R$ 6,47 bilhões de reais para 2017 — no ano passado, a autorização inicial era de R$ 6,58 bilhões, dos quais foram gastos R$ 5,95 bilhões. Em 2017, a secretaria desembolsou R$ 3,43 bilhões de janeiro a agosto. No mesmo período de 2016, haviam sido gastos R$ 3,38 bilhões.

Sendo assim, a Prefeitura do Rio de Janeiro, durante os oito primeiros meses de 2017, gastou cerca de R$ 50 milhões a mais com educação em relação ao ano passado — ou 1,6% a mais. A inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) para o período, entretanto, foi de 2,46%, de modo que o valor não representa alta real nos investimentos do município em relação ao ano passado.

A Secretaria Municipal de Saúde, cujo orçamento inicial para este ano era de R$ 5,32 bilhões, desembolsou R$ 2,83 bilhões até agosto. No ano passado, o mesmo órgão, que tinha o orçamento inicial de R$ 4,92 bilhões, desembolsou um total de R$ 3,28 bilhões neste mesmo período. Em todo o ano de 2016, a secretaria gastou R$ 5 bilhões.

Isso significa que, para o os oito primeiros meses de 2017, a prefeitura gastou quase R$ 450 milhões a menos em saúde do que no mesmo período do ano passado — uma diminuição, portanto, de 13,7%.