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Corrente engana ao indicar vitamina C e água quente com limão contra coronavírus

Por Priscila Pacheco

5 de março de 2020, 16h21


Uma corrente que se espalha pelo WhatsApp (veja aqui) e em posts do Facebook (veja aqui) traz informações falsas e distorcidas sobre a prevenção contra o novo coronavírus. O texto engana, por exemplo, ao indicar altas doses de vitamina C para o fortalecimento do sistema imunológico contra o 2019-nCoV e a ingestão de água quente com limão para prevenir essa e outras doenças, duas medidas que não são corroboradas por instituições de saúde, estudos e especialistas consultados por Aos Fatos.

Em resumo, o que checamos:

1. Ainda que a vitamina C aliada a uma alimentação rica em outros nutrientes contribua para o fortalecimento do sistema imunológico, não é verdade que o alto consumo dessa substância em estado natural incremente a defesa do organismo por si só. No caso do novo coronavírus, ela nem mesmo consta entre os procedimentos de prevenção recomendados pelo Ministério da Saúde e a OMS (Organização Mundial da Saúde). Além disso, pesquisas existentes apontam que a vitamina C não ajuda a prevenir nem a curar resfriados comuns;

2. Tampouco há evidência que ateste que a ingestão de água morna com limão seja eficaz na prevenção de doenças, como sugere o texto. Nutricionistas apontam, aliás, que o consumo de limão em excesso pode ser prejudicial à saúde;

3. Por fim, são falsas a autoria e a fonte citadas no texto. A mensagem é atribuída à Laila Ahmadi, que seria uma estudante de Zanjan, na China. A instituição, porém, fica no Irã, e a aluna se chama Leila. Já Chen Horin, do Hospital Militar da China, não pôde ser localizado e já foi citado como fonte de outra peça de desinformação relacionada à saúde.

A corrente foi enviada por WhatsApp por leitores do Aos Fatos como sugestão de checagem (inscreva-se aqui). No Facebook, posts com o texto reuniam ao menos 1.400 compartilhamentos até a tarde desta quinta-feira (5) e foram marcados com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).


FALSO

Por favor, use o máximo de vitamina C natural possível para fortalecer seu sistema imunológico [contra o novo coronavírus]

A vitamina C tem papel importante no organismo ao desempenhar ação antioxidante, que combate radicais livres — moléculas que podem danificar células sadias. Porém, a ingestão da substância por si só não é suficiente para fortalecer o sistema imunológico e impedir infecções, como a do novo coronavírus. Ela também não é recomendada como prevenção pela OMS (Organização Mundial de Saúde) nem pelo Ministério da Saúde. Segundo as duas instituições, não há evidências de que alimentos sirvam para impedir a contaminação.

Mariana Del Bosco, nutricionista e mestre em ciências pela USP (Universidade de São Paulo) ressalta ainda que o uso de suplementos de vitamina C vendidos em farmácias deve ser recomendado por um profissional de acordo com o quadro do paciente. Isso porque, em alguns casos, o produto pode ter uma dosagem da substância acima do necessário.

A cautela é corroborada por texto publicado pelo National Institutes of Health que, apesar de atestar a baixa toxicidade da vitamina C mesmo em altas doses, alerta que a substância pode causar diarreia, náusea, cólicas abdominais e outros distúrbios gastrointestinais caso não seja absorvida pelo trato gastrointestinal.

Mesmo em resfriados comuns, a prevenção por meio apenas da ingestão de vitamina C é questionada. Um estudo publicado pela Cochrane em 2013 aponta que há indícios de que ela pode reduzir a duração de um resfriado, mas que não ajuda a evitá-lo. A informação também é citada em publicação da Oregon State University.

Recomendações. Para reduzir o risco de contaminação pelo novo coronavírus, a OMS e o Ministério da Saúde recomendam lavar as mãos frequentemente, cobrir a boca e o nariz ao tossir e espirrar, limpar e desinfetar objetos que sempre são tocados e evitar contato com o infectado.

Ainda não há tratamento específico para infecções causadas pelo coronavírus. É indicado repouso e consumo de bastante água, além de medidas adotadas para aliviar os sintomas de acordo com cada caso e recomendadas por um médico.


FALSO

Limão quente pode matar células cancerígenas! Corte o limão em três partes e coloque em um copo, depois despeje água quente e transforme-a em (água alcalina), beba todos os dias, definitivamente beneficiará a todos. O tratamento com esse extrato destrói apenas células malignas e não afeta células saudáveis.

A ingestão de água quente com limão não mata células cancerígenas, diferentemente do que afirma o texto que circula nas redes. Tampouco há evidências científicas de que beber água morna com sumo da fruta traga benefícios para o organismo ou o fortaleça contra doenças, como o novo coronavírus.

Priscila Moreira, conselheira do Conselho Regional de Nutricionistas de São Paulo e Mato Grosso do Sul, ressalta, ainda, que o consumo em excesso do limão pode ser nocivo ao sistema gástrico e desgastar o esmalte dos dentes por conta do alto teor de acidez.

Segundo a Universidade de Ciências Médicas de Arkansas, a falsa associação entre o limão e a cura do câncer distorce uma verdade: frutas cítricas, incluindo o limão, realmente têm componentes que ajudam a prevenir ou a combater alguns tipos da doença. No entanto, “os níveis encontrados nos alimentos podem apenas melhorar a capacidade do corpo de combater o câncer. Não há, ainda, substituto científico comprovado para radioterapia ou quimioterapia”, de acordo com a instituição.

São dois os componentes anticancerígenos do limão, segundo o National Center for Health Research: os limonóides e a PMC (pecticina modificada de cítricos). Enquanto os primeiros tiveram resultado positivo ao combater células do câncer de mama em cultura in vitro, a PMC já mostrou que pode ajudar no tratamento de vários tipos da doença em animais. Isso significa que os componentes do limão podem ter propriedades de combate ao câncer, mas tais benefícios ainda não foram comprovados.

Esta mesma desinformação circulou em janeiro de 2019, em outro contexto, conforme Aos Fatos checou.


FALSO

Olá, sou Laila Ahmadi da China, estudante da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Zanjan. (...)

É importante ter maior conhecimento da doença: o professor Chen Horin, CEO do Hospital Militar de Pequim, diz.

A Universidade de Zanjan não fica na China, como sustenta o texto checado, mas em Zanjan, província do Irã. O nome da estudante da Faculdade de Ciências Médicas da instituição não é Laila, mas sim Leila Ahmadi. Aos Fatos não encontrou registros de que ela seja a autora do texto nem teve sucesso ao tentar contatá-la.

A respeito do professor Chen Horin, já teve o nome citado no ano passado em uma desinformação sobre o consumo de abacaxi com água quente checada como falsa pelo Aos Fatos. Na época, foi verificado no Research Gate que existe um pesquisador chamado Chen Hui-ren, mas não há indícios de que ele trabalhe no Hospital Militar de Pequim.

Referências:

1. OMS (Fontes 1, 2 e 3)
2. Ministério da Saúde (Fontes 1 e 2)
3. Boatos.org
4. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4 e 5)
5. Health Feedback
6. Factcheck.org
7. Cochrane
8. Oregon State University
9. National Institutes of Health
10. Connecting Research and Researchers
11. Universidade de Ciências Médicas Zanjan
12. Research Gate
13. Universidade de Arkansas
14. CEPEUSP
15. Wiley
16. Journal of Dentistry


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