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Reprodução

Contra evidências, Joice diz no Roda Viva que não difundiu notícia falsa nas eleições

Por Amanda Ribeiro e Bruno Fávero

23 de outubro de 2019, 12h21


Contrariando uma série de evidências, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) afirmou no programa Roda Viva, da TV Cultura, que não difundiu notícias falsas na campanha eleitoral do ano passado. Então candidata, ela usou o Twitter para acusar Fernando Haddad (PT) de defender a sexualização de crianças e de criar um "kit gay", o que já havia sido amplamente desmentido na época. Joice também compartilhou um vídeo adulterado que mostrava urnas eleitorais autocompletando o voto no candidato petista.

Na entrevista desta segunda-feira (21), a jornalista ainda exagerou ao dizer que os níveis de emprego no Brasil não tiveram ascensão e foi imprecisa ao comentar sobre o processo de plágio contra ela.

Em resumo, o que checamos:

1. É falso que Joice não difundiu desinformação durante as eleições de 2018. No Twitter, em outubro daquele ano, ela acusou o candidato a presidente Fernando Haddad (PT) de querer sexualizar crianças e de ser "pai do kit gay", mesmo que evidências já apontassem para a falsidade dessas informações. Joice também reproduziu uma montagem mostrando uma adulteração de urnas eletrônicas que não ocorreu;

2. A deputada exagerou ao afirmar que o nível de emprego no Brasil não está crescendo. O índice de desocupação em agosto estava em 11,8%, ligeiramente menor do que os 12,1% registrados no mesmo mês em 2018 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística);

3. É impreciso afirmar que o processo por plágio movido pelo Sindicato dos Jornalistas do Paraná contra Joice tenha sido anulado pela Justiça. A ação administrativa foi suspensa em primeira instância, mas o sindicato já entrou com recurso e a decisão ainda pode ser revista;

4. A deputada também foi imprecisa ao afirmar que o Pacote Anticrime está parado no Congresso. A tramitação dos projetos que fazem parte do pacote avançou pouco, mas não está totalmente parada;

5. Joice Hasselmann foi mesmo a candidata mulher mais votada para a Câmara dos Deputados, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) desde 1994. Ela foi eleita no ano passado com 1,078 milhão de votos, 5,11% do total do eleitorado paulista;

6. Joice também acerta ao dizer que Bolsonaro creditou publicamente sua eleição à atuação do filho, o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ). Em entrevista à Jovem Pan em abril, o presidente disse que Carlos deveria ter cargo de ministro, já que ele “que me botou aqui”.


FALSO

Eu não difundi nenhum tipo de fake news [nas eleições de 2018].

Ao proferir essa declaração, a deputada Joice Hasselmann falava sobre a campanha de 2018 e tentava diferenciar seu comportamento nas redes dos de outros membros do PSL. Porém, uma busca em seu perfil no Twitter traz exemplos de desinformação que foram reproduzidas por ela.

Ela acusou o então candidato à Presidência pelo PT, Fernando Haddad, de sexualizar crianças e de seguir o "decálogo de Lenin", reproduzindo duas notícias falsas que circulavam à época (como é possível ver aqui e aqui).

No mesmo dia, Joice também acusou o opositor de ser "pai do kit gay", apelido depreciativo para o projeto Escola Sem Homofobia, o que também já tinha sido provado que não era verdade.

Ainda em 2018, Joice divulgou um vídeo que mostrava uma urna eleitoral supostamente programada para autocompletar o voto em Haddad. A gravação é uma montagem.

Por fim, neste ano, a deputada voltou a compartilhar desinformação em seu perfil quando reproduziu uma tabela que distorcia informações sobre os incêndios na Amazônia.

Em nenhuma das ocasiões acima citadas, a deputada pediu desculpas, se corrigiu ou apagou o conteúdo enganoso de seus perfis.


EXAGERADO

Enquanto isso, a gente tá aqui, com o emprego que não cresce (...)

Esta afirmação de Joice é exagerada, pois a taxa de desemprego no Brasil caiu e novas vagas de emprego foram criadas desde que Bolsonaro assumiu o governo, embora o ritmo de melhora seja lento. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de desocupação em agosto deste ano era de 11,8%, menor do que os 12,1% no mesmo período do ano passado e os 12% do trimestre encerrado em julho.

Já o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) registrou em agosto um saldo de 121.387 vagas formais, o melhor resultado para o mês desde 2013. No ano, o saldo positivo é de 593.497 novos empregos.

Outros números de emprego medidos pelo IBGE, no entanto, não indicam melhora. A taxa de subutilização (pessoas que trabalham menos horas do que gostariam) subiu para 24,6% no trimestre encerrado em julho, contra 24,4% no mesmo período em 2018. Já a população desalentada (que desistiu de procurar emprego) manteve-se estável em 4,4%, recorde da série histórica.


IMPRECISO

Em relação à denúncia do sindicato [sobre os casos de plágio], ela foi anulada na Justiça. Eu provei, por A mais B, que era uma denúncia de gente ligada à CUT dentro do sindicato.

A deputada obteve, em setembro, uma decisão judicial em primeira instância favorável à anulação do processo administrativo por plágio movido pelo Sindicato dos Jornalistas do Paraná em 2014 contra ela. O sindicato, porém, já entrou com recurso e a decisão ainda pode ser revista.

Também não consta na decisão da juíza Anne Regina Mendes qualquer menção ao fato de o sindicato estar ligado à CUT (Central Única dos Trabalhadores). A ação, na verdade, foi suspensa porque a jornalista alegou não ter sido propriamente notificada, o que impossibilitou que apresentasse defesa.

Em 2014, o Sindicato dos Jornalistas do Paraná recebeu denúncias de 23 profissionais que alegaram ter tido seus textos plagiados por Joice, à época responsável por um site chamado Blog da Joice. O Comitê de Ética da instituição constatou, após investigação, que a jornalista havia plagiado 65 reportagens escritas por 42 pessoas diferentes.

De acordo com o parecer do comitê, Joice foi contatada por telefone e afirmou que seu advogado entraria em contato. Nunca houve, no entanto, apresentação de defesa. Como punição, a jornalista foi proibida de integrar o quadro do sindicato e os autores das reportagens foram autorizados a entrar com processo contra ela na Justiça.

Após a decisão do sindicato, Joice entrou com processo na Justiça pedindo que ela fosse anulada. De acordo com ela, o fato de não ter recebido a notificação em mãos impediu que se defendesse de maneira adequada. O que é discutido no processo, portanto, é a maneira como a ação administrativa foi conduzida pelo sindicato, não o fato de Joice ter ou não plagiado as reportagens.

Na decisão que anula o procedimento administrativo movido contra Joice pelo sindicato, a magistrada Anne Regina Mendes, do TJ-PR (Tribunal de Justiça do Paraná), ressalta que a notificação deve ser pessoal, o que não aconteceu, uma vez que quem recebeu os documentos foi uma pessoa presente no edifício onde a jornalista residia. De acordo com Mendes, apesar de o sindicato afirmar que o responsável pelo recebimento era porteiro do prédio, não apresentou nenhum tipo de prova para tal, o que invalidaria o argumento.


IMPRECISO

(...) O Pacote Anticrime parado no Congresso.

Apresentado ao Congresso no dia 19 de fevereiro, o Pacote Anticrime proposto pelo ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, avançou pouco na Câmara, mas não está totalmente parado.

Três projetos compõem o pacote: os PLs (projetos de lei) 881 e 882, e o PLP (projeto de lei complementar) 38. O PL 881, que criminaliza a caixa dois, tramita em regime de prioridade e foi discutido pela última vez no dia 2 de setembro, quando foi requisitada sua desapensação de um projeto mais antigo sobre o mesmo tema, o PL 9171/2017. O requerimento foi negado pela mesa diretora da Câmara.

Já o PL 882, que propõe estabelecer medidas contra a corrupção, o crime organizado e delitos praticados com violência, é analisado desde março por um grupo de trabalho criado pelo presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ).

A iniciativa deveria ter durado 90 dias, mas que já teve quatro prorrogações. Nesta quarta-feira (23), seus integrantes se reúnem e podem votar o relatório do deputado Capitão Augusto (PL-SP). Maia prometeu agilizar a tramitação do projeto, levando o texto direto para votação no plenário, sem passar por comissão especial.

Finalmente, o PLP 38, que prevê mudanças no julgamento de crimes crimes eleitorais, teve parecer favorável da relatora, a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), e está pronto para ser votado no Plenário desde o dia 1º de outubro.


VERDADEIRO

[Fui a] mulher mais votada na história da Câmara.

De acordo com os dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que trazem os resultados das eleições desde 1994, Joice foi, de fato, a mulher mais votada na história da Câmara dos Deputados. Eleita no pleito de 2018 com 1,078 milhão de votos, 5,11% do total do eleitorado de São Paulo, ela foi a segunda candidata mais votada no país, atrás apenas do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que obteve 1,8 milhão de votos, 8,74% do eleitorado.

Já o posto de mulher mais votada nas eleições de 2018 como um todo é da deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP), que recebeu dois milhões de votos na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo.


VERDADEIRO

O presidente disse várias vezes: eu devo minha eleição ao Carlos [Bolsonaro]. Ele falou. Isso é público.

É verdade que o presidente Jair Bolsonaro já atribuiu sua vitória nas urnas em 2018 ao filho Carlos Bolsonaro (PSL), vereador no Rio de Janeiro, por sua participação na estratégia de comunicação da campanha.

Em entrevista à rádio Jovem Pan (a partir de 38''), em abril, Bolsonaro afirmou: "Acho até que ele [Carlos] devia ter um cargo de ministro. Ele que me botou aqui. Foi realmente a mídia dele que me botou aqui".

Mesmo depois a campanha, Carlos Bolsonaro seguiu administrando as redes sociais do pai. Na semana passada, ele pediu desculpas por ter publicado, na conta do presidente, uma mensagem de apoio à prisão após a condenação em segunda instância.

Em abril, o jornalista Guilherme Amado, da Época, noticiou que Carlos havia vetado o acesso de Bolsonaro à própria conta do Twitter. Bolsonaro negou a informação.

Outro lado. Procurada nesta terça-feira (22) para comentar o resultado das checagens, a deputada Joice Hasselmann não respondeu.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2 e 3)
2. Sindijor PR (Fontes 1 e 2)
3. TJ-PR
4. Folha de S.Paulo (Fontes 1 e 2)
5. G1
6. IBGE
7. Caged
8. Câmara dos Deputados (Fontes 1, 2, 3, 4 e 5)
9. Jovem Pan
10. Época