Aos Fatos

Como um clone do Aos Fatos esconde uma rede articulada de grandes sites de fake news

Por Tai Nalon

13 de fevereiro de 2019, 19h40


Uma rede de sites de fake news punida pela Justiça Eleitoral no ano passado se apropriou do nome Aos Fatos para espalhar mais desinformação. O mais recente empreendimento desse grupo articulado que produz informações fraudulentas é o site aosfatos.com, ou Jornal Aos Fatos, cujo domínio foi comprado em 31 de janeiro deste ano e, desde então, publica sistematicamente conteúdo com informações falsas.

O site é ligado a uma rede de mais de uma dezena de sites que usa ferramentas do Google para hospedar conteúdo e fazer dinheiro por meio de publicidade. O próprio Google já foi acionado pela Justiça Eleitoral para fornecer dados sobre esses produtores de conteúdo fraudulento. O Jornal Aos Fatos usa deliberada e ilegalmente o nome do Aos Fatos para confundir leitores.

O site fake é, entretanto, apenas a ponta de um gigante iceberg de desinformação. Está ligado a ao menos outras cinco páginas de distribuição de notícias falsas com grande capilaridade nas redes sociais: O Detetive (hoje fora do ar), Plantão Brasil, Notícias Brasil Online, Pensa Brasil e Descobrindo As Verdades. Aos Fatos já desbancou conteúdo falso ou distorcido desses sites ao menos 14 vezes.

O exemplo mais notório é o do site O Detetive, que, em setembro de 2018, durante a campanha eleitoral, foi intimado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul por afirmar que a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) havia mandado um advogado para defender Adélio Bispo, o homem que esfaqueou o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL).

Segundo a decisão, a defesa da petista alegava que "a propalação do conteúdo visa induzir os eleitores a um 'forte sentimento de repulsa' e à incitação do ódio contra a candidata". A petição para a retirada do conteúdo afirma que os responsáveis pelo site O Detetive "divulgam fato sabidamente inverídico com o fim de denegrir a reputação da candidata, causando-lhe dano eleitoral". A determinação da Justiça Eleitoral apontava como responsável pelo site O Detetive Franciney Duda Lima, de Sertãozinho (SP). A publicação está fora do ar.

Já os donos do Notícias Brasil Online foram perfilados em reportagem do G1 em junho do ano passado. Na ocasião, seus autores argumentavam que o site não publicava notícias falsas. Conforme a reportagem, os sócios Rafael Brunetti e Hugo Dantas estavam por trás da falsa repórter Marcela Ross, que publicava textos nos sites Lava Jato News, Painel Econômico e no próprio Notícias Brasil Online.

Como os sites se articulam. O site aosfatos.com (que não é o site aosfatos.org, que, por sua vez, é este aqui) está no ar há menos de um mês, mas usa o mesmo Google Analytics ID de um site banido por espalhar fake news durante as eleições do ano passado. Pesquisando o código-fonte do site fake Jornal Aos Fatos, é possível ver que o ID é pub-2670901358432562.

O Google Analytics ID (User ID) é um recurso que, segundo o Google, permite que o usuário possa ter acesso a dados de engajamento de vários dispositivos diferentes usando o mesmo registro. Ele faz com que a mesma pessoa que entra em um determinado site pelo celular e por um tablet, por exemplo, contabilize nas métricas do Google Analytics apenas um acesso, não dois, o que dá maior precisão a esses dados.

O site O Detetive usava o mesmo ID do Jornal Aos Fatos quando, no ano passado, o TRE do Rio Grande do Sul determinou que fosse banido das redes sociais o conteúdo falso que relacionava Maria do Rosário a Adélio Bispo.

Com auxílio da ferramenta SpyOnWeb, que rastreia sites com conexões entre si, Aos Fatos constatou que o site fake Jornal Aos Fatos também compartilha o mesmo Google Analytics ID com o site descobrindoasverdades.blogspot.com, acessível apenas para convidados.

Ao colocar essa URL no SpyOnWeb, é possível ver que o site Descobrindo As Verdades, por sua vez, também está relacionado, a partir da ferramenta Google AdSense, de monetização por audiência, a alguns dos maiores sites de fake news brasileiros: Plantão Brasil, Notícias Brasil Online e Pensa Brasil. Há também vários outros sites que usam o mesmo código, como Grêmio Avalanche, Tudo Timão e Aécio Neves Não.

Por meio da ferramenta SimilarWeb, de contagem estimada de visitas a sites, é possível ver que a audiência desses sites chega mensalmente à casa do milhão. O site Plantão Brasil computou 1,78 milhão de visitas em janeiro de 2019. No mês das eleições, outubro de 2018, esse número chegou a 2,9 milhões. O site Pensa Brasil teve seu auge durante o período eleitoral, quando, em outubro, somou 2,9 milhões de acessos em seu site. Em janeiro de 2019, só computou 110 mil visitas.

Questionado por Aos Fatos, o Google não informou quanto esses sites de notícias falsas ganharam em 2018 por meio de sua ferramenta de monetização por acesso. Segundo sua assessoria de imprensa, "esse tipo de informação pertence ao detentor da conta e não temos autorização para divulgá-la".

Como o Google vê o problema. Além de estar associado a sites de notícias falsas cujos dados o Google já teve de entregar à Justiça Eleitoral, o site fake Jornal Aos Fatos usa uma plataforma de blogs da empresa para hospedagem de seu conteúdo, o Blogspot. Ali, também usa ferramenta de anúncios Revcontent, que redireciona para sites duvidosos cujos textos têm como título, por exemplo, "Doutora Revela Como Curar a Impotência Sexual E Durar 2 Horas". Esse site, por sua vez, vende um produto que se pretende atuar no combate à impotência chamado Taramaster.

Aos Fatos perguntou ao Google por que, ciente de que estava relacionado a um site de fake news autuado pela Justiça Eleitoral, a empresa decidiu pela manutenção da ID de usuário do Google Analytics que hoje também está associado ao site Jornal Aos Fatos. A empresa respondeu, por meio de assessoria de imprensa, que não comentaria casos específicos.

A reportagem também questionou como o Google vê o uso de suas ferramentas para a publicação de desinformação e o que faz para combater o problema. Segundo a assessoria, a empresa trabalha "para combater aqueles que procuram manipular o sistema ou inundar os resultados da pesquisa com material de baixa qualidade e enganoso".

"Não há uma solução definitiva, uma vez que os agentes que procuram fazer mau uso dos nossos serviços estão constantemente procurando por brechas e o Google, por outro lado, constantemente aprimora os mecanismos de detecção de ações que vão contra nossas políticas de uso e de proteção dos nossos usuários", afirmou ainda, por e-mail.

O Google diz que atua em frentes como redução do fluxo de tráfego (ranking alternativo, política de deturpação) e monetização (política de falsidade ideológica) para sites e/ou criadores de conteúdo mal-intencionados; oferece maneiras para que usuários identifiquem conteúdo de má qualidade e ajuda a encontrar conteúdo enganoso com selo de checagem de fatos; financia pesquisa sobre desinformação; e ajuda redações a encontrar modelos de negócios inovadores e sustentáveis.

Como o Facebook vê o problema. Por meio da parceria de verificação que Aos Fatos mantém com o Facebook, páginas de sites com notícias falsas como Plantão Brasil e Notícias Brasil Online, ligados ao site fake Jornal Aos Fatos, já tiveram conteúdo marcado como falso ou distorcido ao menos 14 vezes. Essas páginas, entretanto, continuam com alto engajamento. A do Plantão Brasil tem quase 1,2 milhão de curtidas, enquanto a do Notícias Brasil Online tem quase 112 mil.

A política do Facebook é de não banir produtores de conteúdo de sua plataforma, a não ser por violação de políticas de autenticidade. Em julho do ano passado, por exemplo, derrubou 196 páginas e 87 perfis no Brasil. Na ocasião, o Facebook disse que se tratava de “uma rede coordenada que se ocultava com o uso de contas falsas no Facebook, e escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação”.

"Reduzir a disseminação de notícias falsas no Facebook é algo que levamos muito a sério. Temos adotado uma série de medidas para combater a desinformação, como, por exemplo, eliminar os incentivos econômicos para pessoas, páginas e domínios na internet que propagam tais conteúdos, e reduzir a distribuição de conteúdos marcados como falsos por agências independentes de checagem, como o Aos Fatos no Brasil", afirmou, em nota, a assessoria de imprensa do Facebook.

(Aos Fatos mantém parceria remunerada com o Facebook para combate à desinformação em sua plataforma.)

O que Aos Fatos já checou. Entre os componentes dessa rede de desinformação, o Notícias Brasil Online foi o site que mais publicou conteúdos que acabaram desmentidos por Aos Fatos. Ao todo, seis publicações foram classificadas como falsas. A checagem mais recente é de janeiro deste ano, quando o site publicou que o governador da Bahia, Rui Costa (PT), teria se autoproclamado “Presidente do Nordeste Brasileiro” durante entrevista coletiva. Isso nunca ocorreu.

Já o Pensa Brasil teve quatro notícias falsas desmascaradas por Aos Fatos desde o ano passado. Em duas delas, os textos inventavam informações sobre o ex-presidente Lula e sua família, como a de que o petista era dono de uma poupança de R$ 108 milhões depositada em Luxemburgo. Houve um caso em que o site também disse que o juiz Sérgio Moro, hoje ministro da Justiça e da Segurança Pública, aparecia em planilhas da Odebrecht com o apelido “Mazzaropi”.

O Plantão Brasil destoa dos outros dois citados por adotar uma linha à esquerda, com publicações que atacam o governo Bolsonaro. O site tornou viral um meme que utilizava informações falsas para fazer um #10yearschallenge do patrimônio de Bolsonaro. Ao todo, Aos Fatos checou quatro publicações desse site.

Outro lado. Aos Fatos tentou entrar em contato com os responsáveis pelos sites citados na reportagem, mas apenas o Notícias Brasil Online tem ferramenta ativa, com endereço de e-mail válido. A mensagem enviada ao e-mail do Pensa Brasil retornou. Por e-mail, a reportagem apresentou o que apurou: as ligações entre os IDs e o Google AdSense. Também perguntou quais seriam as relações entre as páginas. Até a publicação desta reportagem, no entanto, não havia obtido retorno dos responsáveis pelos sites.

Colaborou Luiz Fernando Menezes