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Como fazer sua própria checagem de fatos e detectar notícias falsas

Por Sérgio Spagnuolo

24 de novembro de 2016, 17h32


Duas semanas depois da vitória de Donald Trump nas eleições americanas, sites especializados em escrutinar a mídia permanecem procurando motivos para entender por que, a despeito das várias mentiras feitas durante a campanha, o candidato republicano foi eleito. Efêmero, o diagnóstico é que notícias falsas compartilhadas nas redes sociais tiveram papel preponderante no resultado eleitoral norte-americano — sobretudo aquelas que procuravam confirmar as percepções de seus leitores.

Na semana passada, Aos Fatos assinou uma carta endereçada ao Facebook ao lado de duas dezenas de organizações jornalísticas de checagem de fatos para ajudar a combater a disseminação de notícias falsas na rede social. É com base nesse princípio, que elencamos seis diretrizes básicas para auxiliar quem duvida e, sobretudo, quem não questiona o que é distribuído nas redes.

1

Busque fontes confiáveis

Por mais que você possa ter suspeitas sobre o posicionamento da dita imprensa tradicional, veículos conhecidos, como jornais, revistas e sites de grandes empresas são fontes legítimas de informações factuais. Eles são capazes de bancar uma estrutura física mínima com jornalistas preocupados com procedimentos técnicos básicos com os quais se faz jornalismo.

No entanto, nas redes, não basta apenas ver o nome e o logo do veículo — é preciso checar também o endereço. Folha Política, por exemplo, é muito diferente de Folha de S.Paulo. Isso acontece porque é muito fácil replicar a identidade visual de qualquer veículo. É assim que muitos golpes online acontecem.

2

Questione

Não é raro que veículos jornalísticos usem dados de instituições e estudos pouco confiáveis. As motivações podem ser diversas: as informações podem revelar fatos curiosos, podem confirmar teses que o veículo apoia, podem aumentar a audiência, podem ser resultado de erro.

Um documentário lançado em 2014, chamado “O Abraço Corporativo” , trata exatamente disso. Ele conta a história de um professor que inventou a “teoria do abraço” — e a imprensa aceitou esse “pesquisa” como verdade. No fim, o professor era apenas um ator.

Se você se deparar com algo do tipo, pesquise e questione: a informação tem como fonte uma instituição de credibilidade? Vem de um instituto ou de uma universidade de renome? Vem de um órgão do governo que desenvolve políticas públicas bem sucedidas, com reconhecimento internacional? O veículo deixa claro qual foi a metodologia usada para chegar àquele resultado? Tente responder a perguntas do tipo antes de apertar o botão de compartilhar no Facebook.

3

Certifique-se de que no texto há referências

Vários veículos independentes têm surgido no Brasil nos últimos anos, o que é bom para a pluralidade de opiniões e de narrativas. É comum, entretanto, que muitos deles usem sua popularidade nas redes para advogar por causas específicas, baseando-se mais em opiniões incendiárias do que em fatos.

Foi o caso, por exemplo, do site “Desacato”, que anunciou em sua página que o governo federal buscava o “fim da licença maternidade remunerada”. Preocupante, não?

Uma das formas de avaliar a qualidade da informação é procurar saber se o autor do texto atribui uma fonte àquela apuração. Se houver algum link externo, que leve para a fonte original, melhor.

Nesse caso em específico, percebemos que o texto não traz dados que subsidiam sua afirmação: sem atribuição inclusive ao autor, o material traz apenas adjetivos que criticam a política de Michel Temer.

No fim das contas, o que existe é um projeto para mudar a carência do benefício de licença maternidade, aumentando de um para 10 meses o tempo exigido de contribuição de INSS, no caso de o segurado perder essa condição junto ao Regime Geral da Previdência Social. Se isso é bom ou ruim, é outro caso.

4

Olho na linguagem

Textos com linguagem carregada de adjetivos ou conotação pejorativa tendem a trazer informações falsas ou distorcidas.

Insultar adversários e utilizar adjetivos como “petralha”, “coxinha”, “golpista” pode funcionar para exprimir seu ponto de vista pessoal, mas não é linguagem usada em apurações factuais jornalísticas sérias.

Isso sempre deve levantar uma bandeira vermelha na hora de acreditar se aquela informação realmente é procedente. Na dúvida, recorra a fontes de informação que utilizam linguagem mais equilibrada.

5

Veja se o texto está assinado e se é possível contatar o veículo

O ato de assinar um texto é mais do que mera vaidade de um jornalista: ao lado do veículo para o qual trabalha, ele também está assumindo responsabilidade pelo conteúdo produzido.

Alguns veículos não usam esse recurso, como a revista britânica The Economist — ou até mesmo o Aos Fatos no começo de sua trajetória. Nesse caso, se você confia no veículo, atribui-se a ele, institucionalmente, toda a responsabilidade.

Confira também se há referências ao expediente do veículo em sua página na internet e outros mecanismos de contato, como e-mail, endereço físico, telefone. No caso de Aos Fatos, mantemos uma página permanente com informações relevantes sobre nossos colaboradores.

6

Redes sociais são um começo, mas não a melhor fonte

O simples fato de uma pessoa articulada publicar alguma opinião ou comentário nas redes sociais não faz dela uma especialista. Por isso, é sempre bom lembrar: internet não é fonte; é meio.

No jargão jornalístico, fonte é a pessoa ou instituição que presta uma informação qualificada — e que, a depender de sua relevância e de sua experiência, merece ou não ser reproduzida em reportagem.

As redes sociais podem ser bons ponto de partida para a sua pesquisa, mas certamente não é bom acreditar em tudo o que se publica nesses portais pelo valor de face. Na dúvida, não compartilhe.