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Beto Barata/PR

Como checar declarações de políticos em 10 passos

publicado em: 06 de abril de 2017, às 23h35


Este guia é de autoria de Peter Cunliffe-Jones, diretor executivo do Africa Check. Foi produzido pela International Fact-Checking Network por ocasião do Dia Internacional do Fact-Checking e agora é parte de uma série que Aos Fatos traduz para o português.


De Joanesburgo a Lagos, de Washington a Buenos Aires, a confiança nos políticos poucas vezes esteve tão baixa. Mas esse sentimento antipolítica é justificável? Nem sempre.

Na maior parte dos países, políticos, como quaisquer outros profissionais, tendem a misturar informações corretas e incorretas quando falam. Isso acontece na África do Sul, isso acontece na Argentina — sejam eles presidentes, primeiros ministros, prefeitos ou conselheiros locais.

Se a verdade é incerta e você quer saber o que é verdade e o que é mentira, como proceder? Como checar a declaração de um político?

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Descubra se a declaração é uma suposição ou uma afirmação

Se a declaração que você viu na TV ou na internet lhe parece equivocada, pergunte-se se é uma suposição ou uma afirmação. Opinião e retórica têm influência no debate público, assim como a sátira. Porém, não é possível checar opiniões — e reclamar de uma sátira ou do uso razoável de uma licença poética só expõe sua falta de senso de humor.

Declarações checáveis são fáceis de perceber. Muitas vezes elas retratam questões concretas (emprego, saúde, infraestrutura), números e comparações (minha administração/meu país está indo melhor/pior do que o seu). Elas também podem dizer respeito às realizações de um político ou à situação em que a cidade/o país está graças a ele.

Checagens de promessas ou de suposições sobre o futuro não são checagens de fato, já que o futuro não pode ser checado imediatamente.

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Decida se a declaração é relevante

Para evitar perda de tempo, pergunte a si mesmo se a checagem vai realmente ter impacto — seja sobre você, seja sobre a sociedade em geral. Caso positivo, cheque e compartilhe. Caso contrário, vá fazer outra coisa.

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Peça por evidências — Se o político não responder, tente encontrá-las por conta própria

Seja você um cidadão comum ou um repórter no exercício da função, pergunte a origem daquela informação. Você não precisa ser um jornalista para fazer isso. A maior parte dos políticos têm sites e contas no Twitter, de modo que é fácil pedir evidências que respaldem sua declaração.

Se eles não responderem, procure por provas você mesmo, sobretudo se houver suspeita de que a declaração é incorreta.

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Quando encontrar evidência, teste

Se o político fornecer informações que subsidiam sua afirmação, faça os seguintes testes:

- De quando é a informação? Lembre-se: é uma tática bastante popular escolher datas específicas para que os números pareçam retratar uma realidade melhorada. Faça análises mais amplas para observar o contexto.

- Como a informação foi coletada, e por quem? O que você sabe a respeito da fonte da informação? Tem credibilidade? Como a informação foi coletada? Se é uma pesquisa, quantas pessoas foram ouvidas e por quem?

- Os dados são abrangentes? Um estudo restrito não deve ser extrapolado para um universo maior — e vice-versa.

- A informação foi chancelada por outros? Cientistas se amparam em seus pares para testar descobertas. A evidência foi testada e confirmada por outras fontes de credibilidade?

- A evidência de fato mostra o que o político diz que mostra? Leia tudo o que a fonte da informação traz. Não tome pelo valor de face o que é demonstrado.

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Pense no contexto

Mantenha os números em proporção e pergunte-se se a declaração se aplica. Estatísticos do Reino Unido dizem que uma declaração-chave dita no ano passado por ocasião do referendo do Brexit foi "potencialmente enganosa" porque números foram apresentados fora de contexto.

Por exemplo: um político que critica seu oponente ao dizer que houve pouco crescimento econômico durante seu mandato pode estar enganando o eleitor se ele não admite que o adversário herdou uma recessão ao assumir o cargo.

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Eles estão reivindicando crédito sobre o que não lhes pertence?

Outro truque comum é reivindicar crédito por algo que foi resultado de projetos herdados de outros políticos. Se um político quer levar crédito pelo crescimento econômico verificado durante seus primeiros dias de mandato, ele pode estar enganando seus observadores. Da mesma forma, políticos podem enganar ao reclamar do crescimento das taxas de criminalidade se não levar em consideração que a população também pode ter crescido.

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Encontre fontes confiáveis para testar a declaração

A depender do seu país, a parte mais difícil de checar fatos será encontrar dados confiáveis para testar uma afirmação. É por isso que uma série de organizações de checagem, como o Full Fact, no Reino Unido, produziram guias para fontes de informação de credibilidade. O Africa Check também. A depender da declaração que você quiser checar, boas fontes são documentos governamentais e estatísticas oficiais, além de registros de empresas, estudos científicos e relatórios de centros de pesquisa.

Não há um guia simples para fontes confiáveis, mas há algumas regras para checadores: não se ampare em apenas uma fonte. Observe a metodologia e seu financiamento; seja cético, não cínico.

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Entenda por que alguém iria acreditar na declaração

Se você for escrever a respeito da declaração, lembre-se de algumas regras: não seja cri-cri. Se um número é apenas um pouco equivocado, considere-o "parcialmente correto". Ninguém respeita classificações radicais, assim como ninguém é perfeito. Não diga que alguém está mentindo se não houver prova contundente sobre isso.

Tente entender por que alguém deveria acreditar naquela declaração. Não seja reducionista; seja elucidativo.

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Aceite que haverá críticas

É importante aceitar que haverá críticas. Muitos estudos mostram que pessoas de todas as ideologias são comumente resistentes a evidências que contrariam o que elas acreditam — não importa a quantidade de dados e fatos que você ofertá-las. Não entre em discussões.

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Corrija seus erros

Aceite que seus críticos podem ter alguma razão. Ninguém é imune a erros — nem quem os checa. Corrija seus erros abertamente e melhore sua credibilidade. Ao ocultá-los ou negá-los, você poderá comprometê-la.


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