Aos Fatos

Luiz Fernando Menezes/Aos Fatos

Cinco fatos sobre o aquecimento global

Por Luiz Fernando Menezes e Ana Rita Cunha

12 de abril de 2019, 14h17


A cidade do Rio de Janeiro foi alvo da maior tempestade dos últimos 22 anos nesta semana. A chuva, que começou na segunda-feira (8) e seguiu com força até terça (9), alagou casas, derrubou barreiras e árvores e deixou 10 mortos.

Ao comentar os efeitos do temporal sobre a cidade, o prefeito da capital, Marcelo Crivella (PRB), na quarta-feira (10), culpou a falta de dinheiro para fazer obras de prevenção e também o aquecimento global: "Estamos enfrentando problemas seríssimos de aquecimento global. Nunca se choveu tanto em tão pouco tempo".

Especialistas no assunto viram na declaração de Crivella uma tentativa de transferir a responsabilidade da crise, em meio a críticas pela inação da prefeitura durante a chuva, mas concordam que a intensidade está relacionada com as mudanças climáticas.

Segundo Emilio La Rovere, coordenador do Centro Clima da Coppe/UFRJ, em entrevista ao jornal O Dia: "Não está acontecendo nada de novo. Isso se repete há anos. O prefeito não pode dizer que está surpreso pelos efeitos do aquecimento global. Se ele tivesse prestado a atenção aos estudos, a situação não seria essa. Nada foi colocado em prática. E a situação vai piorar".

Para dimensionar o impacto do aquecimento global no clima e na vida no planeta, Aos Fatos destrinchou (e desenhou) cinco fatos sobre o assunto:


1. A temperatura na Terra já passou por diversas mudanças nos últimos milhões de anos, alternando períodos frios (as chamadas "Eras do Gelo"), períodos quentes ("Interglaciais") e intermediários. No entanto, o conceito aquecimento global refere-se, na maior parte das vezes, à mudança climática causada pela ação humana.

Apesar de ainda existirem visões diferentes entre a comunidade acadêmica a respeito do aquecimento global e da responsabilidade humana, o IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), em 2013, apresentou um relatório que afirma ser "extremamente provável" (95% de chances) que o aquecimento observado desde a metade do século XX seja resultado da ação do homem.

2. Houve aumento na incidência de tempestades de intensidade recorde, incêndios florestais, secas, ondas de calor e enchentes ao redor do mundo com apenas 1ºC de aquecimento global na última década.

O NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, do governo americano), cita como principais influências das mudanças climáticas a queima de combustíveis fósseis, emissão de gases e a transformação da paisagem terrestre.

O IPCC, em seu último relatório completo, publicado em 2013, aponta como grandes responsáveis os gases que causam o efeito estufa: "o efeito estufa contribuiu para um aquecimento global médio na superfície terrestre entre 0,5 ºC e 1,3ºC no período de 1951 a 2010".

3. Além dos impactos citados, o aquecimento global também já afeta diretamente o cotidiano de milhões ao redor do mundo. Estima-se que cerca de 22,5 milhões de pessoas emigragram anualmente entre 2008 a 2014 por causa do aumento do nível do mar, que alagou regiões costeiras, das secas que inviabilizam a agricultura e dos desastres naturais. A ONU acredita que, até 2050, o número total de migrantes motivados pelas mudanças climáticas possa chegar até 1 bilhão de pessoas.

Além de incentivar a migração, impactos das mudanças climáticas favorecem a proliferação de doenças e situações mortais. Em 2014, a OMS (Organização Mundial da Saúde) estimou que, entre 2030 e 2050, cerca de 250 mil pessoas morrerão por fatores como desnutrição, estresse térmico e doenças causadas por mosquitos, como a malária.

Um estudo de 2017 publicado no The New England Journal of Medicine, mesmo não atualizando a estimativa, diz que o número da OMS é "conservador": segundo a pesquisa, a organização não levou em conta outros fatores que podem contribuir para a alta da mortalidade, como a queda da produção agrícola e as interrupções de serviços de saúde em razão de climas extremos.

4. Como o Brasil é um país extenso, é alta sua vulnerabilidade às mudanças climáticas globais. Por aqui, o PBMC (Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas) aponta que o aquecimento global afetará principalmente o índice de chuvas, que tende a aumentar.

A maioria das cidades brasileiras já tem problemas ambientais associados a padrões de desenvolvimento e transformação de áreas geográficas. Mudanças exacerbadas no ciclo hidrológico pelo aquecimento global tendem a acentuar os riscos existentes, tais como inundações, deslizamentos de terra, ondas de calor e limitações de fornecimento de água potável.

Um dos setores mais afetados é a agricultura. As alterações do clima causam modificações no regime hídrico e na temperatura global, influenciando diretamente a produtividade das culturas. Projeta-se que a soja deverá ser a cultura mais atingida, com perdas de até 40% de suas áreas de baixo risco até 2070 no pior cenário projetado pelo IPCC. O plantio de café arábico também deverá perder até 33% de sua área em baixo risco climático nos estados de São Paulo e Minas Gerais.

5. Há também alertas em relação à saúde do brasileiro: segundo os cientistas do PBMC, considerando o aumento de 25% na incidência de chuvas na região sudeste da América do Sul, cidades situadas principalmente no Sul do Brasil poderão registrar a proliferação de doenças transmitidas por mosquitos, como malária e dengue.

Enchentes ou secas também afetam a qualidade e o acesso à água potável e podem favorecer a incidência de doenças infecciosas como a leptospirose, as hepatites virais, as doenças diarréicas e as não transmissíveis, como a desnutrição.

Já as queimadas e efeitos de inversões térmicas que concentram a poluição, influenciam a qualidade do ar, principalmente nas áreas urbanas, agravando as doenças respiratórias e alterando as condições de exposição aos poluentes atmosféricos.