Aos Fatos

Fernando Frazão/Agência Brasil

Checamos o que disse Bolsonaro na primeira semana após o primeiro turno

Por Judite Cypreste e Bárbara Libório

12 de outubro de 2018, 12h15


O candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) concedeu uma série de entrevistas na semana posterior às votações do primeiro turno. Aos Fatos checou algumas dessas declarações, dentre as quais as que o candidato afirma de maneira errada que "nem Lula teve votação tão maciça no primeiro turno" e que "Haddad criou o 'kit gay'".

Veja, em seguida, o que checamos.


FALSO

Nem o Lula teve uma votação tão maciça no primeiro turno quanto eu tive. — Jair Bolsonaro, em entrevista à rádio Jovem Pan

Com um total de 49.276.990 votos e 46,03% de votos válidos, Bolsonaro ficou em primeiro lugar no primeiro turno das eleições presidenciais deste ano e concorre o segundo turno com o candidato Fernando Haddad. No entanto, o candidato traz uma informação FALSA ao se comparar com o ex-presidente Lula com relação ao número de votos que recebeu neste primeiro turno de eleições: em ambos os pleitos (2002 e 2006) Lula conseguiu uma proporção de votos válidos no primeiro turno superior ao candidato do PSL — com 46.4% em 2002 e 48,6% em 2006, quando tentou a reeleição. Os dados são do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Levando-se em consideração o número de votos válidos totais, sem considerar brancos e nulos — o que, estatisticamente, estaria errado, já que o número de cidadãos brasileiros aptos à votação é diferente e crescente a cada ano e, por isso, essa métrica não deve ser usada para medir os votos de cada candidato — Bolsonaro até teria um número superior de eleitores do que o candidato petista registrou em 2002. Naquele ano, Lula conseguiu um total de 39.455.233. Em 2006, 46.662.365 votos nominais.

Para se ter ideia sobre o crescimento do eleitorado brasileiro, em 2002, ano em que Lula venceu o pleito pela primeira vez, foram registrados pelo TSE 84.952.512 votos válidos no primeiro turno. Em 2006, ano da sua reeleição, os votos válidos computados no primeiro turno daquela eleição foram maiores: 95.996.733. Neste ano, o número de eleitores que deram votos para algum dos candidatos foi maior: 107.050.673.

Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de imprensa do candidato, porém, até a última atualização desta reportagem, não havia recebido retorno.


FALSO

Haddad criou o 'kit gay'. Você quer que o seu filho aprenda essas práticas a partir de com seis anos nas escolas? — Jair Bolsonaro, em entrevista à rádio Jovem Pan

Informação repetida constantemente pelo candidato, o material produzido para o projeto Escola Sem Homofobia, chamado pejorativamente de “kit gay”, não tem indicação etária para crianças de seis anos. Além disso, apesar de Jair Bolsonaro afirmar que Fernando Haddad era Ministro da Educação quando a ideia do projeto surgiu, e isto ser verdade, não foi o petista o responsável pela elaboração do conteúdo, e sim organizações não-governamentais da causa LGBT, através de um convênio firmado com o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Além disso, a verba para o projeto — cerca de R$ 1,9 milhão — foi obtida por meio de uma emenda parlamentar da Comissão de Legislação Participativa do Congresso Nacional. Por conta desse conjunto de fatos, a declaração foi classificada como FALSA.

Composto de três vídeos, seis boletins e um caderno com orientações para os educadores, o material nunca foi destinado para crianças de seis anos, e sim a adolescentes e pré-adolescentes. Apesar de um dos vídeos ter a classificação indicativa livre, o caderno do Escola Sem Homofobia recomendava aos educadores “assistir/ouvir e verificar se o material é adequado à reflexão sobre o tema e a seu público”. As atividades também eram propostas como sugestões, e não parte de uma disciplina obrigatória.

Aos Fatos checou recentemente material de desinformação que circulava nas redes sociais com o mesmo conteúdo falso, e você pode ler a checagem na íntegra aqui.

Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de imprensa do candidato, porém, até a última atualização desta reportagem, não havia recebido retorno.


FALSO

Há estudos que apontam que quase 40% dos estudantes no ensino superior são analfabetos funcionais. — Jair Bolsonaro, em seu perfil no Twitter

Não é verdade que quase 40% dos estudantes do ensino superior são analfabetos funcionais. Os dados coincidem com aqueles apresentados pelo Inaf, o Indicador de Alfabetismo Funcional, medido pelo Instituto Paulo Montenegro — mas em outro contexto. O número mais próximo ao que foi citado pelo candidato, de 38%, refere-se ao índice de analfabetismo funcional dos brasileiros de 15 a 64 anos em 2003, e não trata apenas dos estudantes do ensino superior. Por isso, a declaração recebeu o selo de FALSO.

Segundo o instituto, o índice de analfabetismo funcional dos estudantes do ensino superior era de 2% entre 2001 e 2002, foi para 4% em 2011, e ficou em 4% novamente segundo os dados preliminares de 2018. Ou seja, os dados demonstram uma realidade bastante distante daquela apontada por Bolsonaro.

Os dados também mostram que três em cada dez jovens e adultos de 15 a 64 anos no país — 29% do total, o equivalente a cerca de 38 milhões de pessoas — são considerados analfabetos funcionais. Em 2009, 2011 e 2015, relatórios mais recentes, o número era de 27%.

Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de imprensa do candidato, porém, até a última atualização desta reportagem, não havia recebido retorno.


EXAGERADO

Meu adversário [Fernando Haddad] falou que vai combater o encarceramento e soltar criminosos da cadeia. — Jair Bolsonaro, em seu perfil no Twitter

A afirmação foi considerada EXAGERADA porque não se trata de deliberadamente soltar criminosos da cadeia, e sim de estabelecer penas alternativas. Para comprovar isso, Aos Fatos consultou o programa de governo do PT e verificou que o documento promete que Haddad, se eleito, "enfrentará o encarceramento em massa, sobretudo o da juventude negra e da periferia". Segundo o texto, isso diminui “a pressão sobre o sistema carcerário, trazendo ganhos globais de economia de recursos” e “abre espaço para que as polícias civil e militar se concentrem na repressão a crimes violentos e no combate às organizações criminosas, com foco na redução de homicídios”.

Há menção no programa a uma "reforma da legislação para reservar a privação de liberdade para condutas violentas e promover a eficácia das alternativas penais". Isso ocorreria por meio de um Plano Nacional de Política Criminal e Penitenciária que estabeleceria uma Política Nacional de Alternativas Penais. Não há menção sobre soltar criminosos que já estão presos.

Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de imprensa do candidato, porém, até a última atualização desta reportagem, não havia recebido retorno.


VERDADEIRO

Estamos chegando a 4 trilhões da dívida interna. — Jair Bolsonaro, em entrevista à TV Bandeirantes

A dívida pública federal fechou agosto, último mês disponível para análise, com um total de R$ 3,785 trilhões. As informações são do Relatório Mensal da Dívida, divulgado pela Secretaria do Tesouro Nacional, do Ministério da Fazenda. O Tesouro Nacional é o responsável por emitir a dívida pública, que serve para cobrir despesas governamentais que superaram a arrecadação. Desta forma, é VERDADEIRA a afirmação do candidato sobre a dívida interna do país.

O estoque da dívida apresentou crescimento de 0,98%, indo de R$ 3.748,84 bilhões, em julho deste ano, para R$ 3.785,66 bilhões em agosto. De acordo com o PAF (Plano Anual de Financiamento), a previsão é que, neste ano, a dívida fique entre R$ 3,78 trilhões e R$ 3,98 trilhões. No ano passado, o valor foi menor; R$ 3,559 trilhões.