Aos Fatos

As checagens em tempo real do debate da RedeTV! com candidatos ao governo de SP

Por Ana Rita Cunha, Bárbara Libório, Bernardo Moura, Judite Cypreste, Luiz Fernando Menezes e Tai Nalon

24 de agosto de 2018, 21h00


Postulantes ao governo do estado de São Paulo participaram nesta sexta-feira (24) na RedeTV! do segundo debate televisivo desta campanha ao Palácio dos Bandeirantes. A equipe do Aos Fatos checou em tempo real o debate.

Antes de iniciar os trabalhos de tempo real, a reportagem entrou em contato com as assessorias de imprensa dos candidatos para informá-las do processo de checagem do debate. A equipe do Aos Fatos está aberta a observações, justificativas e eventuais correções nos momentos posteriores ao debate.

Veja, abaixo, o que checamos.


IMPRECISO

Criamos a Univesp. Saiu de 3 mil pra mais de 50 mil alunos. — Márcio França (PSB)

A informação divulgada pela Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo) é que, de 2017 para o primeiro semestre de 2018, o número de alunos cresceu de 3 mil para 35 mil — e não mais de 50 mil, como dito pelo candidato Márcio França. No segundo semestre, foram abertas 21.650 vagas e as matrículas foram recentemente concluídas (diferente do informado anteriormente, quando afirmamos que as matrículas ainda estavam abertas).

O número de França também não leva em conta alunos que possam ter concluído o curso no final do primeiro semestre de 2018. Vale ressaltar que o número de vagas não indica necessariamente o número de alunos, pois estas podem estar ociosas. O dado apresentado por Márcio França soma os números de alunos do segundo semestre com as vagas abertas para 2018, mas, como não leva em conta alunos que concluíram o curso no segundo semestre, a declaração foi considerada IMPRECISA.

A Univesp confirmou a informação ao Aos Fatos em checagem publicada em 19 de julho. O número de França também não leva em conta alunos que possa ter concluído o curso no final do primeiro semestre de 2018.

A Univesp informou também que, neste último concurso, houve 38 mil inscritos em disputa pelas 21.650 vagas para os cursos de Engenharia da Computação, Engenharia de Produção, Licenciatura em Matemática, Pedagogia e Tecnologia em Gestão Pública. O órgão informou que há previsão de que, em agosto, após o resultado do último vestibular, o número de alunos suba para 50 mil.

A instituição, criada em 2012 exclusivamente para educação à distância, é mantida pelo Governo do Estado de São Paulo. Em um evento que estabeleceu a expansão do convênio da universidade com 230 municípios, Márcio França chegou a declarar o dado correto: em um ano, a Universidade saiu de 3 mil alunos para 55 mil vagas ofertadas.

*Diferentemente do informado na primeira versão da checagem da declaração de Márcio França, as matrículas da Univesp já foram concluídas no dia 17 de agosto de 2018. A informação foi corrigida em 24 de agosto às 23h07.


FALSO

São Paulo tem [...] 450 mil alunos em toda a rede pública universitária. — Márcio França (PSB)

O estado de São Paulo tinha 286.964 alunos matriculados em cursos universitários presenciais e à distância de universidades públicas de acordo com os dados do Censo de Ensino Superior do Inep de 2016, dado mais recente disponível. O dado mencionado por França é 57% maior do que o apresentado pelo Inep, por isso a declaração foi considerada FALSA.

No começo do ano, França repetiu a afirmação em evento da Univesp ao falar sobre as 21 mil novas vagas que foram abertas no vestibular da universidade no segundo semestre de 2018.

De acordo com os dados do Inep, a rede pública universitária de São Paulo é a maior do país, à frente de Minas Gerais (201,5 mil alunos), Rio de Janeiro (141,4 mil alunos) e Bahia (112 mil alunos). São Paulo tem 50.544 alunos em instituições federais, 189.014 em instituições estaduais e 47.406 instituições municipais.


IMPRECISO

A LDO está sendo discutida, foram reservados R$ 23 bilhões para desonerações — Professora Lisete (PSOL)

A declaração é IMPRECISA porque, segundo o projeto de 2019, o governo paulista de fato prevê a desoneração de R$ 23 bilhões — mas só em relação ao ICMS. O projeto prevê, por exemplo, mais R$ 1,07 bilhão em desoneração em relação à arrecadação do IPVA.

O projeto de LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) do Estado de São Paulo já está disponível no site do governo. Segundo o texto, “a renúncia de receita poderá atingir 16,0% da arrecadação prevista”. Como a previsão é de que se arrecade R$ 143,9 bilhões em 2019 com o ICMS, a renúncia prevista é de R$ 23 bilhões.

Ainda de acordo com o projeto de LDO, há também a previsão de desoneração de R$ 1,07 bilhão do IPVA de veículos isentos (R$ 327 milhões) e com mais de 20 anos (R$ 751 milhões).

Portanto, a afirmação só se refere a um dos impostos e não à desoneração total. É IMPRECISO.


IMPRECISO

O agro é o setor que cresceu 13% ano passado, de um país que não cresceu sequer 1%. — João Doria (PSDB)

De acordo com dados do IBGE, o PIB brasileiro teve um crescimento em 2017 de R$ 6,599 trilhões, o equivalente a uma alta de 1% com relação ao ano anterior. Como o candidato disse que o país "não cresceu sequer 1%", Aos Fatos classificou a afirmação como IMPRECISA.

Agora, de fato, o setor agropecuário participou de 70% desse crescimento, e teve um aumento de 13% em comparação a 2016. Esses dados já foram checados em outra oportunidade por Aos Fatos, e você pode conferir aqui.


FALSO

Em menos de quatro meses, reduzimos de 126 dias para apenas quatro dias a abertura de novas empresas. — João Doria (PSDB)

O ex-prefeito errou tanto o tempo que ele levou para atingir a meta quanto os dias necessários para abrir novas empresas. Ele também esqueceu de dizer que só se refere a empresas com atividades econômicas de baixo risco, que eram o alvo de seu programa.

Doria refere-se ao seu programa Empreenda Fácil, lançado em maio de 2017, que desburocratizou a abertura de empresas de baixo risco e realmente diminuiu o tempo para seu licenciamento. Segundo o site de metas do ex-prefeito, o objetivo era sair do valor-base de 101,5 dias e chegar a cinco dias no segundo semestre de 2018. No entanto, ao contrário do que Doria disse, a meta foi alcançada só em outubro, ou seja, cerca de cinco meses depois de lançado o programa.

Além disso, o próprio site de metas prevê que o tempo necessário para a abertura cresça até o final deste ano e chegue a sete dias.

Portanto, é FALSO dizer que levaram menos de quatro meses para reduzir os dias para a abertura de novas empresas.

Essa era uma das metas da gestão Doria. Aos Fatos checou a informação anteriormente, quando o ex-prefeito deixou o cargo.

* Após intervenção do Twitter oficial do ex-prefeito, esta checagem foi atualizada às 0h20 do dia 25 de agosto de 2018 para corrigir a informação sobre os meses que a gestão Doria levou para chegar à meta. Como o tempo ainda assim não é menor que quatro meses e a afirmação ainda possui outras incorreções, o selo permanece.


VERDADEIRO

A sua nota [João Doria] no Datafolha é 3,7. — Professora Lisete (PSOL)

Segundo a pesquisa Datafolha realizada após a renúncia de Doria ao cargo de prefeito de São Paulo, de fato, a nota média da administração municipal, numa escala de 0 a 10, ficou em 3,7. Segundo a pesquisa, essa é a nota média mais baixa da série. Portanto, a afirmação É VERDADEIRA.

Vale lembrar que Doria tinha sua gestão reprovada por 47% dos paulistanos e aprovada apenas por 18% na mesma época.


EXAGERADO

Eu fui ministro do Trabalho do presidente Lula e ajudei, aprendi com ele a gerar 14 milhões de empregos com carteira assinada. — Luiz Marinho (PT)

Por mais que o governo Lula tenha um grande saldo positivo, o candidato petista ao governo de São Paulo exagerou os números.

Como Luiz Marinho se referiu a empregos de carteira assinada, a melhor base para o cálculo é o Caged, do Ministério do Trabalho, que contabiliza apenas o saldo do trabalho formal do setor privado. Segundo essa base de dados, o saldo de janeiro de 2003 a dezembro de 2010 foi de 11,2 milhões de empregos — e não 14 milhões.

Luiz Marinho ocupou o cargo de ministro do Trabalho de 2005 a 2007.


VERDADEIRO

Fui eleito com 60% dos votos [na Fiesp] (...) e fui reeleito outras vezes quase de forma unânime. — Paulo Skaf (MDB)

A declaração de Paulo Skaf é VERDADEIRA. No cargo há quase 15 anos, Paulo Skaf foi eleito pela primeira vez para a presidência da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) em 2004 com 57,4% dos votos. Na sua última eleição, em 2017, Skaf concorreu em chapa única e recebeu 97% dos votos ganhando por unanimidade, segundo informou a assessoria da federação por e-mail. O mandato atual vai até 2021, de acordo com a entidade.

Na primeira eleição, Skaf que fazia parte da chapa de oposição ao então presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, foi eleito com 70 votos (57,4%, a diferença para a afirmação do pré-candidato seria de 3 votos) contra 52 votos (42,6%) de seu adversário, Cláudio Vaz. Foi a primeira vez em que Fiesp e Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) tiveram presidentes diferentes, pois Vaz ficou à frente da Ciesp naquele ano.

Em sua segunda eleição, em 2007, Paulo Skaf foi reeleito presidente da Fiesp com 96,7% dos votos. No mesmo ano, ele conseguiu tomar a liderança da Ciesp. Nas duas entidades, apenas uma chapa concorreu às eleições, ambas encabeçadas pelo atual pré-candidato ao Palácio dos Bandeirantes. Na terceira vez, em 2011, Skaf foi novamente eleito para a presidência das duas entidades com 98,4% dos votos válidos.

Em 2014, seu mandato à frente da Fiesp foi prorrogado. A administração, que terminaria em setembro de 2015, foi prolongada até 31 de dezembro de 2017. Recentemente, ele se licenciou para disputar o governo paulista e, em seu lugar, assumiu o presidente da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), José Ricardo Roriz Coelho.


VERDADEIRO

[Há] 30 estupros por dia em São Paulo — Luiz Marinho (PT)

Como a média de casos de estupro no estado de São Paulo, neste ano, está em 33 registros por dia, a afirmação de Luiz Marinho é VERDADEIRA.

Segundo os dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, em todo o estado e somando todos os tipos de de estupro — consumado, tentado e de vulnerável —, foram registrados 2.891 casos no segundo trimestre de 2018. Isso significa que ocorreram aproximadamente 31 estupros por dia em São Paulo.

Em relação ao primeiro trimestre deste ano, o número foi ainda pior: a secretaria registrou 3.218 estupros no estado. Sendo assim, ocorreram cerca de 35 casos deste tipo por dia em São Paulo. A média de 2018, portanto, foi de 33 estupros diários.


VERDADEIRO

A gente fala de índice de homicídios, mas se esquece que, nessas duas horas em que estamos juntos, pelo menos 90 pessoas vão ter sido roubadas, assaltadas, mulheres violentadas. — Paulo Skaf (MDB)

Em São Paulo, houve 993.098 ocorrências de assaltos, furtos, furtos de veículos e casos de estupros contra mulheres em 2017, segundo os dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Isso corresponde a 113 casos desses delitos por hora. Com isso, a declaração de Paulo Skaf é VERDADEIRA, pois, a cada duas horas, 227 pessoas são assaltadas, furtadas ou mulheres são violentadas. O número está incluso na estimativa citada por Skaf.

Ainda que desconsideremos os índices de furtos de veículos, o número apresentado por Skaf permanece verdadeiro. Se excluirmos esse dado, ainda temos que 187 pessoas são assaltadas furtadas ou mulheres são violentadas a cada duas horas.


VERDADEIRO

A USP, por meio da FAU, desenvolveu e já desenvolve há mais ou menos 10 anos o projeto de um hidroanel metropolitano. — Marcelo Cândido (PDT)

O Estudo da Articulação Arquitetônica e Urbanística dos Estudos de Pré-viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental do Hidroanel Metropolitano de São Paulo foi desenvolvido em 2011 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP a convite da empresa Petcon – Planejamento em Transporte e Consultoria Ltda., que foi a vencedora de edital lançado pelo governo em 2009.

O projeto consiste em um circuito hidroviário que circundaria toda a região metropolitana de São Paulo, pelos rios Pinheiros, Tietê, e pelas represas Billings, Guarapiranga e Taiaçupeba. Com extensão de 170 quilômetros, ele traria benefícios como a melhora no trânsito, maior controle de enchentes e a diminuição da emissão de poluentes.

Aos Fatos não checa opiniões, portanto, não foi possível verificar declarações do candidato Rodrigo Tavares (PRTB), pois não houve, da parte dele, qualquer afirmação passível de checagem.