Aos Fatos

Casamento de Preta Gil não foi pago com a Lei Rouanet; boato de 2015 volta às redes

Por Luiz Fernando Menezes

28 de dezembro de 2018, 16h49


A cantora Preta Gil não utilizou dinheiro público ou arrecadado pela Lei Rouanet para realizar seu casamento em 2015. Além de não haver projeto parecido cadastrado no portal da lei, também não há qualquer indício ou investigação que aponte nessa direção. A informação falsa que voltou a circular nas redes sociais nesta semana tem origem em um texto publicado logo após o casamento da filha de Gilberto Gil.

O artigo, escrito por André Forastieri em seu blog no R7, questionava como a cantora teria pago todas as “extravagâncias” da festa e insinuava que a família dela teria utilizado dinheiro público para arcar com as despesas. A publicação levou o site a ser condenado pela Justiça a pagar uma indenização de R$ 200 mil à família de Gilberto Gil.

A história foi ressuscitada por um blog em junho deste ano e ganhou novamente as redes, sendo replicada inclusive pelo senador Magno Malta (PR-ES). No início desta semana, diversos posts com a informação falsa voltaram a circular e foram denunciados ao Aos Fatos por usuários do Facebook. Juntas, essas publicações já têm mais de 18 mil compartilhamentos. Elas foram marcados com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).


FALSO

#BOOMBAA! BOLSONARO DESCOBRE KE CASAMENTO DE PRETA GIL FOI PAGO COM A LEI ROUANET! PASMEM 2 MILHÕES E 200 MIL!

Segundo algumas publicações que circulam no Facebook, a cantora Preta Gil teria utilizado dinheiro arrecadado da Lei Rouanet para pagar seu casamento, que ocorreu em 2015. No entanto, Aos Fatos não encontrou nenhum projeto aprovado anteriormente ou até proposta semelhante na busca da Lei Rouanet. A empresa de Gilberto Gil, Gege Produções Artísticas Ltda., de fato, teve vários projetos aprovados pelo Ministério da Cultura e já captou um total de R$ 3,9 milhões desde 2009. Nenhum deles, entretanto, refere-se ao casamento de sua filha Preta Gil.

Uma versão do boato também diz que o dinheiro teria sido obtido por Gilberto Gil, já que ele era o ministro da Cultura da época. Mas o casamento ocorreu em 2015, muito tempo depois do cantor deixar a pasta (ele foi ministro de janeiro de 2003 a julho de 2008).

Além disso, a história é a reciclagem de um boato de 2015. Naquela época, foi publicado no blog de André Forastieri no R7 um texto questionando como o casamento de Preta Gil e do personal trainer Rodrigo Godoy teria sido pago: “Quem pagou pelo vestido com trocentas pérolas? A festa para 700 convidados? Os 35 seguranças, os 14 lustres com cristais baccarat, milhares de flores, whisky e champagne? O aluguel da Igreja Nossa Senhora do Carmo, a mais fina da cidade?”. O texto continuava dizendo: “sabemos quem não pagou: o noivo, personal trainer. E sabemos o que não pagou: a carreira de Preta Gil. Tudo que ela toca vira fracasso”.

Mas foi apenas em seu Twitter, após a publicação, que Forastieri questionou se houve dinheiro público envolvido no casamento: “O casamento de Preta Gil tem Lei Rouanet?”. Forastieri, no entanto, não apresentou, nem no texto, nem no seu Twitter, provas de que isso tenha, de fato, acontecido. Em 2016, a 20ª Vara Cível do Rio de Janeiro condenou o portal R7 a indenizar Preta Gil por ter dito que o casamento teria sido pago com dinheiro público. Segundo a coluna da Monica Bergamo, na Folha de S.Paulo, a família recebeu R$ 200 mil de indenização e notificou outras três páginas que divulgaram o mesmo texto.

A informação falsa voltou a circular no Facebook no meio deste ano, quando foi republicada pelo site de Otávio Sá Leitão com o título “Gil usou dinheiro da Lei Rouanet para fazer casamento de Preta. Click aqui”. A história enganosa, inclusive, foi compartilhada por figuras públicas, como o senador Magno Malta (PR-ES).

Aos Fatos entrou em contato com a assessoria da cantora Preta Gil que, por email, respondeu apenas que "obviamente essa notícia não procede".

Como funciona. A Lei 8.313/91 — ou Lei Rouanet, como é mais conhecida— não destina verbas diretamente a artistas: ela, na verdade, torna projetos culturais aptos a serem financiados por empresas. Ou seja, projetos escolhidos pelo Ministério da Cultura recebem um registro no Pronac (Programa Nacional de Apoio à Cultura) e a autorização para que possam captar recursos com patrocinadores, empresas ou pessoas físicas. Esses patrocinadores podem descontar do seu Imposto de Renda os valores que forem repassados a iniciativas culturais.

Esta não é a primeira vez que Aos Fatos verifica um boato sobre a Lei Rouanet. Em junho deste ano, circulou pelas redes uma informação falsa de que a Polícia Federal iria prender beneficiários da lei, incluindo artistas como Camila Pitanga, Wagner Moura e Chico Buarque.


Esta checagem foi atualizada às 20h37 do dia 28 de dezembro para adicionar a resposta da assessoria de Preta Gil.