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Câncer é a doença mais citada em notícias falsas desmentidas pelo Ministério da Saúde

Por Amanda Ribeiro e Luiz Fernando Menezes

4 de outubro de 2019, 12h08


Uma das doenças que mais mata no mundo, o câncer se destaca entre as notícias falsas sobre saúde que circulam nas redes sociais no Brasil. Em um ano, o serviço de checagens do Ministério da Saúde divulgou, em média, um desmentido relacionado à doença a cada 15 dias, verificou Aos Fatos ao analisar as 103 publicações do canal Saúde sem Fake News até agora. Desse total, 24 fazem referência ao câncer.

Em geral, as peças de desinformação sobre a doença sugerem tratamentos simples, como tomar chá de folhas de graviola ou água morna com abacaxi, para curar ou prevenir tumores. Ainda que ausentes em periódicos científicos ou na imprensa, supostas descobertas de curas para esse e outros males ganham difusão rápida em correntes de WhatsApp e em outras redes sociais, como o Facebook e o Instagram.

Das 103 checagens publicadas pelo Saúde sem Fake News desde sua criação, em agosto de 2018, 87 conteúdos receberam o selo de informação falsa, 15 de verdadeira, e uma de distorcida. Em um ano, o órgão informou ter recebido cerca de 12 mil pedidos de checagem.

Publicações que citam potenciais causas ou métodos de cura para uma série de enfermidades são o segundo assunto mais citado nas peças de desinformação desmentidas pelo ministério. Enquadram-se nesse caso, por exemplo, boatos que afirmam que o uso de óleo de coco no umbigo pode curar todo tipo de doença, que tomar água em jejum ajuda a prevenir o câncer, a diabetes e a artrite, e que refrigerantes podem causar problemas renais e ajudar no desenvolvimento de tumores.

Já a Aids, em terceiro lugar, é alvo especialmente de teorias da conspiração que envolvem a sua transmissão. Uma das publicações analisadas, por exemplo, afirma que pessoas vestidas de branco estão injetando propositalmente sangue infectado com o vírus HIV em outras pessoas em razão de um jogo que se popularizou em fóruns e redes sociais conhecido como Baleia Azul.

Com duas postagens cada, cinco doenças e condições de saúde estão em quarto lugar na lista: diabetes, autismo, HPV, gripe e infarto. No caso de diabetes, são citados os métodos falsos de cura naturais. Sobre o HPV a gripe, as postagens alertam sobre os supostos perigos das vacinas. Há também métodos para o tratamento natural de queimaduras e formas de prevenção de infarto.

Já os temas abordados pelas 87 publicações classificadas como falsas pelo Saúde sem Fake News vão de métodos estranhos para prevenção de doenças — como tomar um copo de água antes de pintar os cabelos para eliminar a toxicidade da tinta — a infestações de animais venenosos e potencialmente mortais, como aranhas.

Publicações que divulgam curas e tratamentos milagrosos são as mais frequentes (29) entre as peças de desinformação checadas. Elas citam métodos naturais e o consumo de determinados alimentos como solução para doenças como câncer e diabetes.

Uma das publicações também foi checada como falsa por Aos Fatos no ano passado, quando acumulava cerca de 210 mil compartilhamentos apenas no Facebook. O texto cita um neurocirurgião americano chamado Sanjay Gupta para dizer que é possível combater o câncer cortando o consumo de alimentos com açúcar e tomando água quente com limão e uma colher de óleo de coco todos os dias. O médico, no entanto, não atua na área de pesquisa relacionada ao câncer e nunca atestou nada semelhante. Também não há evidências científicas sobre o método divulgado.

De acordo com o nutricionista do Hospital do Câncer II e funcionário do Inca (Instituto Nacional do Câncer) Gabriel Villaça, a disseminação de desinformação sobre curas milagrosas para a doença pode prejudicar o tratamento de diversas maneiras. O paciente, por exemplo, pode passar a ter medo de consumir algum alimento ou remédio por acreditar que ele pode piorar a doença, ou acreditar fielmente que determinada dieta pode curá-lo.

“Algumas práticas, como tomar chás milagrosos, podem potencializar efeitos tóxicos da quimioterapia; já a exclusão de certos alimentos pode determinar monotonia alimentar e também favorecer a perda de peso e músculo esquelético”, afirma Villaça.

Alimentação. Para combater a desinformação que relaciona determinados alimentos ao câncer, o Inca lançou uma cartilha em que desmente quatro teorias que circulam nas redes sociais. Uma delas afirma ser necessário cortar carboidratos da dieta para que a quimioterapia funcione; outra investe em alimentos milagrosos, como cogumelo do sol, chá de graviola e chá verde.

A disseminação de desinformação relacionada à nutrição não é específica de postagens sobre câncer. Há também publicações que propõem a cura de diabetes pelo consumo de quiabo, as que falam do fim da artrite, da tuberculose e de doenças renais por meio da ingestão de água em jejum pela manhã.

Os alimentos também são protagonistas de outro tipo de peça de desinformação, que teve postagens checadas oito vezes pelo Ministério da Saúde: a de ingredientes contaminados. Estão nessa categoria as mexericas infestadas por escorpiões, um novo tipo de verme mortal que ataca pimentões e até bananas infectadas propositalmente com vírus HIV. Essas três postagens acumulam, juntas, ao menos 900 mil compartilhamentos no Facebook.

Tão perigosas quanto a desinformação sobre curas alternativas são as publicações sobre métodos de prevenção de determinadas doenças. Uma delas, checada também por Aos Fatos quando acumulava ao menos 710 mil compartilhamentos no Facebook, afirma que é possível evitar as sequelas causadas por um AVC (Acidente vascular cerebral) furando as pontas dos dedos de uma pessoa com uma agulha. O boato chega a afirmar que isso deve ser feito antes de se chamar o resgate. A recomendação do Ministério da Saúde é que o pedido de socorro seja imediato em casos de AVC.

Também não há evidências científicas, por exemplo, de que interromper o consumo de pepino durante a menstruação previna a infertilidade, ou de que o consumo de gelo no mesmo período seja responsável por casos de câncer. Deixar de tomar o Paracetamol, remédio analgésico utilizado para tratar dores diversas, durante a gestação também não impede que uma criança nasça com autismo.

Serviços de saúde. Anúncios falsos de prestação de serviços, como campanhas de vacinação, doações de equipamentos de saúde e verba para realização de cirurgias são o segundo assunto mais comum dentre as peças de desinformação analisadas. Na maior parte dos casos, são oferecidos tratamentos e cirurgias gratuitos a usuários que ligarem em determinado número de telefone.

Uma das postagens desmentidas pelo ministério, no entanto, era uma tentativa de golpe que utilizava o nome do Brasil Sorridente, programa nacional de saúde bucal, para roubar os dados de usuários que se cadastravam em um link que prometia tratamento gratuito. Como o próprio ministério ressalta na checagem, o acesso ao SUS é gratuito e universal, e não é necessário realizar nenhum tipo de cadastro para ser considerado elegível aos serviços oferecidos.

Há ainda a desinformação relacionada a vacinas, que foi inclusive exposta por Aos Fatos em reportagem sobre a imunização contra o HPV no Acre. No levantamento feito a partir do banco de checagens do Ministério da Saúde, oito postagens tratavam de temas ligados a vacinas.

A maioria das publicações questiona a efetividade e da segurança da imunização. Uma delas, por exemplo, apresenta dez motivos pelos quais você não deveria vacinar seu filho. Outras postagens associam a vacinação a doenças e condições como o autismo, ao aparecimento de feridas no local de aplicação e a outros “terríveis eventos adversos”. Em todas as checagens, ministério afirma não há nenhum tipo de estudos que comprovem as informações publicadas

Apesar de alguns boatos, como os que afirmam que o Japão proibiu a vacina contra o HPV e que a imunização é a grande causa do autismo, tenham sido originalmente publicadas em redes sociais de outros países, em especial dos Estados Unidos, o presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunização), Juarez Cunha, não acredita que a desinformação sobre vacinas seja um problema importado.

“As causas da desinformação estão ligadas a questões locais, e no Brasil também é assim. Aqui, uma pessoa que tem dúvidas a respeito da segurança e da eficácia das vacinas, ao entrar em contato com um boato negativo, vai se convencer um pouco mais de que a imunização não é boa para ela ou para os seus filhos”, disse.

Além de buscar conter os focos de desinformação nas redes sociais por meio de projetos de checagem conduzidos pela mídia, Cunha ressalta a importância de capacitar o profissional do posto de saúde, que mantém contato direto com o paciente, para sanar quaisquer dúvidas que possam surgir durante o atendimento. Também é preciso, de acordo com ele, investir em uma grade curricular que aborde mais o tema nas universidades de medicina e enfermagem, para que o profissional esteja apto a combater a desinformação no dia-a-dia do trabalho.

Referências:

1. Opas
2. Ministério da Saúde (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 11)
3. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3 e 4)
4. Inca