Aos Fatos

Valter Campanato/ABr

Após acusação de pagamentos ilegais, checamos o pronunciamento de Temer

Por Tai Nalon, Sérgio Spagnuolo e Bárbara Libório

18 de maio de 2017, 16h30


Em seu primeiro pronunciamento após a acusação trazida pela reportagem do jornal O Globo que narra uma conversa comprometedora entre o presidente e um dos diretores da empresa JBS, Michel Temer afirmou que não renunciaria e se amparou em resultados econômicos recentes para defender seu governo.

A partir da declaração de Temer, Aos Fatos checou tudo aquilo que é possível verificar neste momento — ou seja, o que é público. Veja abaixo.


EXAGERADO

A revelação de conversa gravada clandestinamente trouxe de volta os fantasmas da crise política ainda de proporção não dimensionada.

Se o termo "clandestinas" foi usado para insinuar que as gravações são inválidas, é seguro dizer que esse tipo de recurso é previsto em lei, com o uso da chamada "ação controlada". Por meio de delação premiada, homologada nesta quinta-feira (18) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin, as gravações receberam o aval tanto da Procuradoria Geral da República quanto do gabinete do ministro relator da Lava Jato.

Os desdobramentos da gravação foram os seguintes: de posse do áudio de uma conversa com Temer e de uma foto de um jantar com o procurador da República Ângelo Goulart, Joesley Batista procurou a PGR para firmar um acordo de delação premiada. Após avisarem Fachin, a ação controlada foi usada.

A Lei das Organizações Criminosas define o mecanismo da seguinte forma: "Consiste a ação controlada em retardar a intervenção policial ou administrativa relativa à ação praticada por organização criminosa ou a ela vinculada, desde que mantida sob observação e acompanhamento para que a medida legal se concretize no momento mais eficaz à formação de provas e obtenção de informações".

No caso do episódio envolvendo Temer e aliados, os responsáveis por entregar dinheiro eram munidos de gravadores. Cédulas de dinheiro foram identificadas e chips foram colocados em malas. Tudo com a ciência de um ministro do STF e da PGR — o que torna a declaração de Temer EXAGERADA.

O Jota colocou em seu Soundcloud a íntegra do áudio.


IMPRECISO

Os indicadores de queda da inflação, os números de retorno do crescimento da economia e os dados de geração de empregos criaram esperanças de dias melhores.

Inflação. O mercado reduziu a projeção de inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor) pela décima semana consecutiva. De acordo com o boletim Focus do Banco Central, o indicador saiu de 4,01% para 3,93%. O índice vem recuando desde fevereiro de 2016, quando estava em 10,36%. Em março deste ano, o índice fechou em 4,08%. O desemprego, a queda do consumo e a demanda mais franca ajudaram a segurar o aumento de preços.

Crescimento. O IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) é considerado pelo mercado uma "prévia" do PIB (Produto Interno Bruto). Algumas vezes, no entanto, os resultados de ambos se distanciam bastante, já que são calculados de maneiras distintas.

Enquanto o primeiro, calculado pelo Banco Central, incorpora a produção estimada para os setores de indústria, agropecuária e serviços, acrescida dos impostos sobre produtos, o segundo, calculado pelo IBGE, representa a soma de todos os bens e serviços produzidos no país durante certo período.

No primeiro trimestre do ano, segundo o IBC-Br, a atividade econômica cresceu 1,12% em relação ao trimestre anterior. No resultado, mensal, no entanto, houve queda de 0,44% em março em relação a fevereiro, interrompendo um ciclo de altas: em fevereiro, havia sido registrada alta de 1,31% em relação a janeiro, e em janeiro, alta de 0,37% em relação a dezembro. A equipe econômica do governo federal projeta um crescimento de 0,7 a 0,8% para o primeiro trimestre.

Empregos. Embora a geração de emprego formal no Brasil tenha de fato mostrado dados positivos em abril de 2017, com um saldo de 59.856 postos de trabalho (leve alta de 0,16% em relação a março), ainda não há uma tendência estabelecida e consistente. Março, por exemplo, registrou mais demissões.

Além disso, nos últimos 12 meses houve uma redução acumulada de 969.896 postos de trabalho, equivalente a uma retração de -2,47% no contingente de empregados celetistas do país, segundo dados do Ministério do Trabalho.


IMPRECISO

O otimismo retornava e as reformas avançavam no Congresso Nacional.

Confiança. O Índice Datafolha de Confiança relativo a abril alcançou 97 pontos. Segundo o instituto de pesquisa, na comparação com o último levantamento, de dezembro de 2016, o índice subiu 10 pontos. Pontuação parecida foi registrada em julho de 2016, 98, o primeiro depois de o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

A última vez em que o índice ficou acima dos 100 pontos foi em dezembro de 2014, depois das eleições, com 121 pontos.

Reformas. A reforma trabalhista proposta pelo governo em 2016 foi aprovada pela Câmara dos Deputados em abril deste ano. Em tramitação agora no Senado, o texto ainda deve passar pela Comissão de Assuntos Econômicos, pela Comissão de Assuntos Sociais e pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania antes de ir ao plenário — e já enfrenta resistência dentro do próprio PMDB, já que o senador Renan Calheiros (AL) tem articulado para barrar a reforma.

O relator da reforma nas comissões do Senado, Ricardo Ferraço (PSDB-ES), divulgou nota nesta quinta-feira (18) afirmando que o calendário de análise da proposta está suspenso em razão da "crise institucional" instalada em Brasília.

Já a reforma da Previdência, em tramitação na Câmara, teve seu texto aprovado por uma comissão especial no último dia 9. A expectativa da base do governo era de que proposta pudesse ser votada em primeiro turno pelo plenário no dia 29 deste mês, quando deveria haver os 308 os votos necessários.

Para negociar sua aprovação, Aos Fatos mostrou que o governo teve que fazer uma série de concessões, entre elas a idade mínima que passou de 65 anos para ambos os sexos para 65 anos para os homens e 62 anos para as mulheres.


A matéria foi alterada às 20h30 para a inclusão definitiva dos selos de classificação.