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Fabio Rodrigues Pozzebom/AgBr

Alvaro Dias relativiza gastos de campanha e usa dados defasados para falar de estatais

Por Ana Rita Cunha

30 de abril de 2018, 18h30


O senador e pré-candidato à Presidência Alvaro Dias (Podemos-PR) afirmou que gasto milionário com campanha é “soma insignificante” e usou dados defasados para falar de empresas estatais. O político também comentou sobre sua relação com Joel Malucelli, suplente e um dos principais financiadores do senador, cuja empresa é investigada pela Lava Jato.

Em parceria com o UOL, Aos Fatos checou as declarações de Dias durante sua participação no programa Band Eleições, da TV Bandeirantes, na última segunda-feira (23).

Veja abaixo o resultado:


EXAGERADO

Felizmente também eu gasto muito pouco em campanha (...) Gastei uma soma insignificante, absolutamente declarada na Justiça Eleitoral.

A campanha ao senado de Alvaro Dias nas eleições de 2014 foi a segunda mais cara para o Senado pelo Paraná, mas foi a nona mais barata entre todos os senadores eleitos naquele ano. Custou R$ 2,9 milhões, de acordo com as informações declaradas pelo senador ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O Bradesco, por meio da Bradesco Corretora e da Bradesco Leasing, foi o maior doador da campanha do senador, desembolsando R$ 500 mil. Joel Malucelli, seu suplente, doou R$ 300 mil, o segundo maior montante.

A campanha mais cara ao Senado no Paraná foi de Marcelo Beltrão (MDB-PR) que custou R$ 6,5 milhões, 99% financiados pelo próprio candidato. Fechando a lista das campanhas milionárias do estado, o segundo candidato mais votado ao Senado no estado Ricardo Gomyde (PC do B-PR) gastou R$ 1,5 milhão, a maior parte financiada pelo PT ou por candidatos petistas.

Comparando com a campanha dos senadores eleitos em 2014, a campanha de Alvaro Dias foi a nona mais barata. A campanha mais barata entre os senadores eleitos foi de Telmário Mota (PDT-RR), que custou R$ 249 mil, e a mais cara foi de Antonio Anastasia (PSDB-MG), que custou R$ 18 milhões.

Ao analisar o gasto por voto, Alvaro Dias teve o quarto menor custo por voto. É importante destacar, no entanto, que o custo do voto está diretamente ligado à competitividade da disputa. Eleições muito disputadas, com mais de um candidato ou candidata com alta chance de vitória, costumam aumentar os gastos com a campanha.

A senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) teve o voto mais caro entre os candidatos eleitos ao Senado em 2014. Abreu ganhou a eleição com uma diferença de apenas 5.932 votos do segundo colocado na disputa estadual. Na ponta oposta, o senador Romário (PSB-RJ) teve o menor custo por voto, mas ganhou a eleição com um larga vantagem, levando 3,169 milhões de votos a mais do que o segundo colocado no estado.

Apesar de não ser a campanha mais cara entre os senadores eleitos, o senador também disputou o cargo em um cenário menos competitivo: Dias recebeu 77% dos votos válidos do Paraná nas eleições em 2014, 3,435 milhões de votos a mais do que o segundo colocado na disputa estadual a uma vaga no Senado.

Não é possível, portanto, afirmar que uma campanha que gastos milionários seja insignificante. Esse questão fica mais explícita no contexto regional, em que o Alvaro Dias se destaca como a segunda campanha mais cara do Paraná. Nacionalmente, contudo, sua campanha não foi tão cara assim. Por esse motivo, consideramos a declaração EXAGERADA.


VERDADEIRO

Eu fiz quase 80% dos votos do Paraná (...)

Alvaro Dias recebeu 4,1 milhões de votos válidos, 77% do total, nas eleições de 2014, quando se elegeu pelo PSDB para o cargo de senador federal. O segundo colocado, Ricardo Gomyde (PC do B/PR), ficou com 666 mil votos válidos, 12,5% do total.


VERDADEIRO

Meu suplente deixou a empresa em 2012. Ele não está sendo investigado. A empresa, sim; ele não.

O primeiro suplente do Alvaro Dias é Joel Malucelli, empresário dono do Grupo J.Malucelli e um dos principais financiadores da campanha do senador em 2014. O nome de Joel Malucelli não consta de qualquer processo da Operação Lava Jato, portanto a declaração de Alvaro Dias é verdadeira.

A J. Malucelli Construtora de Obras e a J. Malucelli Energia, empresas do grupo de Joel Malucelli, foram alvo de mandados de busca e apreensão da 49° fase da Operação Lava Jato. Segundo o Ministério Público Federal do Paraná, essas empresas, junto com Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Odebrecht, OAS, integrantes do consórcio Norte Energia, pagaram propina para vencer o leilão de concessão da usina hidrelétrica Belo Monte.

Apesar de não estar no rol de investigados, Joel Malucelli ainda era presidente do grupo J.Malucelli quando aconteceu o leilão de Belo Monte, em abril de 2010. Os executivos da J. Malucelli, Celso Jacomel Junior e Theophilo Garcez foram apontados nas delações premiadas como os representantes do grupo empresarial que participavam das negociações de propina, segundo o Ministério Público.

Ainda de acordo com o Ministério Público, as empresas do consórcio efetuaram pagamentos de propina para o MDB (45%), PT (45%) e para Antônio Delfim Netto (10%). A propina correspondia a 1% do valor do contrato e seus aditivos. Os procuradores estimam que tenham sido pagos R$ 15 milhões em propina, sendo R$ 300 mil desembolsados pelo grupo J, Malucelli, que tem 2% na Norte Energia.


IMPRECISO

Olha, nós temos 149 empresas estatais federais. (...) 30% dessas empresas [estatais federais] foram criadas durante o governo do PT.

O Brasil tem 146 empresas estatais federais ativas, segundo o quinto boletim do SIEST (Sistema de Informação das Estatais), o levantamento mais recente do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão sobre o assunto. Na versão anterior do boletim, constava que ao todo o país tinha 149 estatais federais. A versão mais recente leva em conta alterações na Petrobras, a partir da extinção de uma subsidiária e a incorporação de outras duas.

De acordo com dados do Ministério do Planejamento, das 146 empresas estatais federais ativas, 56 foram criadas entre 2003 e maio de 2016, ou seja, durante governos petistas. Isso corresponde a 38% do total de empresas estatais em funcionamento.

O senador provavelmente se refere ao levantamento feito pelo Instituto Teotônio Vilela, ligado ao PSDB, que indica que, entre 2003 e 2015, foram criadas 43 empresas estatais. Ou seja, o levantamento não leva em conta as 14 subsidiárias eólicas criadas em 2016.


VERDADEIRO

Nós temos hoje 52 milhões de brasileiro abaixo da linha da pobreza.

No Brasil, 52,168 milhões de habitantes, ou 25,4% da população, viviam em 2016 abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial, segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2017, a mais recente divulgada pelo IBGE.

Esse número corresponde ao total de brasileiros que vivem com menos de US$ 5,50 por dia por pessoa, equivalente a uma renda mensal de R$ 387,07 por pessoa em valores de 2016.


VERDADEIRO

Temos aí 100 milhões de brasileiros sem acesso a saneamento básico. 35 milhões sem acesso à água tratada. 17 milhões sem acesso à coleta de lixo.

Os dados apresentados por Alvaro Dias são os mesmos daqueles que constam dos relatórios de diagnóstico de serviço publicados pela SNSA (Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental) do Ministério das Cidade em 2018, referentes a 2016.

Os dados apresentados pelo senador estão arredondados. De acordo com os dados da SNSA, em 2016, 48,1% da população brasileira não tinha acesso à saneamento básico, ou seja, 99,140 milhões de brasileiros. 16,7% da população não têm acesso à água tratada, o que representa 34,421 milhões de brasileiros. Em relação à coleta de lixo, 8,5% da população não tem acesso à esse serviço ou 17,519 milhões de brasileiros.

Os relatório do Ministério das Cidades baseiam-se em uma amostra de municípios que repassam informações ao SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento). Os indicadores de cobertura dos serviços é calculado a partir dos dados do SNIS e do IBGE.

Outro lado. A assessoria de imprensa do pré-candidato Alvaro Dias foi procurada para comentar as checagens, porém, até a última atualização desta reportagem, não havia respondido.