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Imagem distorce dados econômicos para sugerir que China se beneficiou do novo coronavírus

Por Ana Rita Cunha

17 de março de 2020, 17h47


Uma imagem compartilhada nas redes sociais que compara o efeito do coronavírus sobre bolsas de valores do mundo todo distorce dados econômicos para insinuar que a China se beneficiou da pandemia do novo coronavírus (veja aqui). Diferentemente do que sugere a peça de desinformação, as bolsas de valores do país têm sofrido com a pandemia: dois de seus índices mais importantes – o CSI 300, que reúne as maiores empresas das bolsas de Xangai e Shenzhen, e o Xangai composto – caíram 8% e 0,94% desde o começo do ano. Além disso, o surto de coronavírus provocou redução da atividade econômica na China, com forte queda na produção industrial e nas vendas no varejo e aumento na taxa de desemprego nos dois primeiros meses de 2020.

A publicação enganosa ainda tem outras imprecisões. Não menciona, por exemplo, quais índices está usando na comparação (cada país pode ter mais de uma bolsa de valores e cada bolsa costuma ter vários indicadores). A imagem também ignora que a bolsa de Hong Kong, citada como uma das prejudicadas pela doença, é na China. Por fim, ela omite que a performance da bolsa de Xangai, principal daquele país, não é comparável com as de outras nações, porque possui regras diferentes: além de ter restrições à participação de estrangeiros, há forte interferência do governo chinês.

As publicações que trazem a imagem com a comparação enganosa somavam ao menos 12 mil compartilhamentos no Facebook até esta terça-feira (17). Todas elas foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de monitoramento da rede social (entenda como funciona). A peça de desinformação também tem sido compartilhada no WhatsApp, onde foi enviada por leitores como sugestão de checagem (inscreva-se aqui). Não há como medir com precisão o alcance do conteúdo em razão da natureza da plataforma.


FALSO

Uma imagem compartilhada nas redes sociais sugere de maneira enganosa que a China se beneficiou economicamente da pandemia do novo coronavírus (veja aqui). A publicação omite informações sobre os dados e faz uma comparação incorreta entre bolsas de valores que operam sob regras diferentes.

O surto de coronavírus provocou forte redução da atividade econômica na China. Os dados do primeiro bimestre mostraram queda de 13,5% na produção industrial, de 20,5% nas vendas do varejo, de 8% na produção de energia para a indústria e de 24,5% em investimentos de ativos fixos, ante mesmo período de 2019, de acordo com o Departamento de Estatísticas do país. A taxa de desemprego teve alta para 6,2%, superando o crescimento durante a guerra comercial entre China e Estados Unidos.

A imagem compartilhada nas redes sociais faz uma comparação incorreta entre os desempenhos da bolsa chinesa e das de outros 11 países, além de Hong Kong. Também engana ao omitir dados, característica típica de peças de desinformação.

Não são informados, por exemplo, quais índices são usados para comparar as bolsas de cada país -- cada uma tem vários índices e, no caso dos Estados Unidos, há mais de um bolsa no país. Também não consta na imagem quais as datas de referência foram usadas para analisar o desempenho mensal. Essa falta de dados impede a checagem das informações da imagem.

Na tabela abaixo, constam os desempenhos das bolsas citadas de 17 de fevereiro a 13 de março. Como é possível observar, o principal índice da bolsa de Xangai registrou queda, ainda que em um patamar inferior aos das demais.

Mesmo não sendo possível checar os dados que aparecem na imagem, existem ao menos dois erros de contexto. O primeiro é justamente omitir que a bolsa de Hong Kong também é chinesa. O território não é um país independente, mas uma região administrativa especial da China, o que lhe garante uma certa autonomia política e econômica, mas tem as áreas de defesa e de relações internacionais controladas pelo governo central da China. O chefe do Executivo de Hong Kong, por exemplo, é eleito em por um comitê cujos os membros são definidos pelo governo chinês.

Outro problema é que as outras bolsas chinesas, a de Xangai e a de Shenzhen, têm regras e funcionamento diferentes da maioria das bolsas mundiais, o que impede uma comparação. Essa duas bolsas não são abertas e têm a volatilidade controlada pelo governo chinês. A participação de estrangeiros nelas só foi autorizada em 2002. O economista e professor de economia chinesa no Insper Roberto Damas explica que, ainda assim, o governo chinês tem regras rígidas para investidores de outros países: “95% dos investidores delas são chineses, não é um mercado financeiro globalizado”.

Damas também ressalta que o governo atua com frequência para evitar grandes variações nessas bolsas, principalmente por meio da empresa estatal Central Huijin Investiment. “O governo chinês usa a Central Huijin para vender ou comprar ações para garantir mais estabilidade do mercado financeiro”. Dados da Bloomberg mostram que desde a crise financeira global de 2015 a atuação do governo na bolsa de Xangai e Shenzhen aumentou. “Esse controle é visível porque existem ações que estão listadas, por exemplo, nas bolsas de Xangai e de Hong Kong que com frequência tem comportamento díspares, o que não acontece nas outras bolsas ”, explica Damas.

Referências:

1. Departamento de Estatísticas da China (Fontes 1 e 2)
2. China Daily
3. Bloomberg
4. G1


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